Galega de Castro

Diletante da escrita

Essencialmente narrativas histórico-familiares


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Pelo Facebook em Ana Bela Costa Gonçalves 


TONINHO

Terá sido o acaso, a circunstância, sobretudo a sorte e o destino que fizeram com que dois beirões viessem a estabelecer um relacionamento alicerçado no "órganon", o "instrumento" rei!

Mais do que o impacto auditivo, foi o sensorial que cativou e impressionou o adolescente, logo no primeiro ato litúrgico a que assistiu. A sublime vibração sonora emitida pelo deslizar das preciosas mãos do Abade Geada sobre o teclado, deixaram-no extasiado! Um inexplicável formigueiro arrepiante percorria-lhe o imberbe corpo.

Para regozijo do rapaz, a divina liturgia ocorria diariamente, proporcionando-lhe equivalente deleite musical.

Mas havia algo mais que o atraía de sobremaneira! Em concreto, a criação técnica subjacente à produção daquele melodioso som.

Apartando o acanhamento que o caracterizava, o jovem pinhelense acabou por se acercar do ilustre diretor do Outeiro de S. Miguel entabulando conversa, focada essencialmente na operacionalidade do instrumento, algo que passou a acontecer amiúde, de forma prazenteira, a contento das partes. No que toca ao Cónego, agradavelmente surpreso pelas pertinentes e curiosas questões que aquele sempre lhe colocava, respondia com sapiência, havendo-se gerado uma preciosa e duradoira afinidade artística.

Havia tardes em que os dois se entretinham a folhear os livros dos Cânticos de Igreja e Salmos, vários da autoria deste ministro religioso.

O sacerdote Manuel Joaquim Geada Pinto sempre lhe dizia, referindo-se ao manuseamento do órgão de tubos:

- Meu menino, escuta, "aquilo" é para grandes homens!

E, sorrindo, acrescentava:

- A música eleva sempre mais alto!

O moço sentia-se um privilegiado! Em boa verdade, tinha motivos para tal! O seu mentor para além de protagonizar na composição musical era um prestigiado e brilhante pedagogo, protetor dos desfavorecidos, detentor de uma assertividade inigualável, destacando-se ainda como poeta, dramaturgo e jornalista.

O afeto e os laços gerados entre ambos foram notórios, tendo Manuel Geada aceite de bom grado ser padrinho de Crisma do António Castro Fonseca.

Foram quatros anos de um valoroso convívio, enquanto aluno interno, que o marcaram profunda e proficuamente. De bom grado percorria a estrada nacional 221, cada domingo, de regresso à gélida e erguida cidade da Guarda para mais uma semana de escola. No final do ano letivo, já com 15 anos, voltou definitivamente à terra natal, sem que antes fosse dado conselho a seus pais que lhe facilitassem o enfoque na música para a qual tinha dom.

Não tardou, portanto, que lhe fossem ministradas as almejadas aulas básicas de solfejo, pela Banda Filarmónica de Pinhel.

A expectável e óbvia evolução em termos de execução musical foi acontecendo, muito dela de cariz autodidata, baseada na sua especial aptidão e na dedicação pessoal, para a qual foi essencial, primeiramente, a aquisição de um órgão de 1 teclado a que se seguiu um outro já com pedaleira, 2 teclados e 27 registos, que ainda na atualidade utiliza.

Cumulativamente, foi-se inteirando da temática que envolve os organistas, os organeiros e a organaria, na vertente internacional em geral, preferencialmente ibérica.

Dada a sua preferência para órgãos de vocação litúrgica, de índole sacra, António tem vindo a ser o executante exclusivo do existente na Igreja de S. Luís de Pinhel. Paralelamente e sempre que a sua atividade profissional lhe permite e as entidades nacionais e castelhanas detentoras dos vários instrumentos, preferencialmente os históricos, lhe facilitem a esporádica utilização, é com enorme prazer que, cerimoniosamente, se dirige ao coro alto, se senta no banco, levanta a tampa do instrumento, orgulhosamente mira o teclado e inicia "carícias" às teclas gerando a excelsa musicalidade!

É notório, sendo digno relevo o seu empenho na divulgação e alerta para preservação do instrumento de teclas dos mais antigos da tradição musical do Ocidente.

Continua a tocar e que todos te possam escutar!

A Galega de Castro

Junho 2024


            "O BENFEITOR"  

(dados bibliográficos reais de uma personagem polémica e de vivência controversa, numa narrativa de uma "viagem no tempo" obviamente ficcionada)

Caminhava pausadamente, que nem um forasteiro, pasmado, mirando as cercanias. Tudo em redor da avenida da estação lhe era desconhecido e, sobretudo, surpreendente.

- Tamanha modernidade! No entanto, nem vislumbre da velhinha imponente edificação amuralhada outrora "Contrasta", após o foral afonsino, perpetuada de Valença – comentou, pensativo, enquanto coçava o queixo.

Havia madrugado como era seu apanágio, pelo que as únicas criaturas na envolvente eram as poupas que, do alto dos frondosos plátanos, vocalizavam "houp, houp".

Cerca de 51 anos o distanciavam da terra natal, do ninho paternal do qual se apartara em 1796. Munido de uma pequena trouxa na mão e uns parcos mil reis, palpitando de esperança, almejando prosperidade no atrativo Brasil, o então jovem aventureiro cruzou o Atlântico e aportou, em solitário, às belas praias de Mem de Sá.

Uma inexplicável inquietação, fronteira da ansiedade, toldava-o. Dirigiu-se à florida rotunda onde mergulhou as mãos, refrescando-as. Salpicou o rosto com gotículas, enxugou-o com o lenço de seda, respirou fundo.

Instantaneamente, elevou o olhar e deparou-se com a edificação secular.

- Valha-me Santa Rita de Cássia! Ei-la, a fortaleza da minha infância! Muita emoção para um ancião de 70 anos – exclamou, suspirando de entusiasmo.

Desejoso de reviver o local de berço, galgou apressadamente o morro a caminho da fortificação, penetrando-a através da "Porta da Coroada".

O sol primaveril erguia-se, a azáfama do comércio iniciava as hostilidades, galegos tagarelas coscuvilhavam as múltiplas lojas na busca de atoalhados e afins.

Sem fôlego, estupefacto pelo cenário mercantil policromático exposto e o restaurado casario predominantemente granítico, estacou, por minutos, maravilhado e mudo.

Avisando-o de que teria de se afastar, um apressado automobilista buzinou, pregando um valente susto a Joaquim.

- Estarei a ter visões? Encantamento? Hmm, tudo se assemelha a uma viagem no tempo – murmurou, cismático.

Um súbito desejo de ingerir algo, motivou-o a procurar local apropriado para o efeito, que veio a recair numa esplanada, bem no âmago do burgo, àquela hora já apinhada de gente, que o mirou de soslaio, provocando-lhe algum desconforto. Pressentiu comentários jocosos sobre si, dirigidos de sobremaneira à sua indumentária muito ao jeito de um revivalismo medieval, na moda na primeira metade do século XIX, com calça de tonalidade clara afinada pelo tornozelo, botas até ao joelho, camisa branca de fartos colarinhos virados para cima e um grande lenço com pontas rodeando o pescoço como substituto da gravata, colete de trespasse curto e sobretudo de veludo rosado, género de casaca, onde várias condecorações sobressaíam.

Ainda restava uma mesa com duas cadeiras disponíveis, pelo que a aproveitou.

- Servis "café da manhã"? Estou cheio de apetite! – perguntou ao empregado da cafetaria.

Habituado a acolher turistas de várias nacionalidades, muitos detentores de peculiar aparência, o moço sorriu, acenou afirmativamente e prontificou-se, em visível desembaraço, a rapidamente facultar o menu.

Após indicar a opção do repasto, escolhida um pouco ao acaso pois muita da oferta era-lhe desconhecida, achou por conveniente esclarecer uma dúvida temporal que o atormentava há alguns minutos:

- Meu jovem, por obséquio dizei-me, em que época estamos? Pretendo saber o ano de Deus?

Perplexo, contendo a gargalhada, sussurrou-lhe ao ouvido:

- Mês de maio do ano de 2023! Século XXI!

O olhar do brasileiro esbugalhou-se. Estremeceu. Sentiu calor disseminar-se das entranhas, cujo reflexo foi visível no corar das faces enrugadas.

Procurando disfarçar o assombro que o que lhe foi dito gerou, limitou-se a balbuciar um impercetível agradecimento.

Um homem de médio porte, delgado, grisalho, semblante seleto e austero, detentor de um espesso sobrolho, apoiado sobre o balcão interior das instalações enquanto sorvia o habitual café matinal, foi examinando aquele ser que para o comum dos mortais parecia limitar-se a um excêntrico personagem, mas que para um observador atento e perspicaz, mereceria uma atenção particular e um acolhimento distintivo.

Decidiu intentar um contacto.

Esboçando aquilo a que se poderia definir como sorriso cordial, discreto, saudou o velho com toda a mesura:

- Bom dia! Bem-vindo a Valença! Espero não estar a importuná-lo. É a primeira vez que nos visita?

Acostumado a socializar, considerado pelos fluminenses como alguém afável, instantaneamente retribuiu o cumprimento com a jovialidade que o caracterizava:

- Incómodo nenhum! É um prazer. Queira sentar-se. Na verdade, é como se nunca cá tivesse estado (gracejou). Meu nome é Joaquim Ferreira, recém-chegado do Brasil. E vossa senhoria é…?

- Sou o "historiador". Nasci um pouco mais a norte, em Melgaço, embora tenho feito vida por estas bandas. Fui militar e também prestei atividade cívica, tendo presidido alguns anos à edilidade local. Reformei-me há algum tempo, mas dedico-me à minha paixão de sempre, a investigação histórica.

- Pertinente este nosso inesperado encontro! Acompanha-me num cálice de vinho? Rapaz, trazei novamente o cardápio, desta vez o das bebidas – exclamou um eufórico Joaquim, enquanto erguia a mão direita acenando em modo de chamamento.

Os dois trocaram algumas impressões sobre o néctar a escolher, tendo o "historiador", conhecedor das opções, sugerido um alvarinho melgacense.

O entusiasmo era latente na pessoa do visitante, o que motivou que decidisse relatar a sua vida a um expectante e interessado ouvinte.

- Caríssimo, ora oiça. A minha mãe, Joana Francisca Ferreira, deus a tenha em descanso, pariu-me aos 4 dias do mês de fevereiro de 1777. Ela era natural de uma freguesia aqui bem próxima designada de Ganfei e havia casado com o meu pai, Manuel Gonçalves Ferreira, natural da freguesia bracarense de Ferreiros. Assumiram Valença como o seu lar. Gente modesta e de trabalho. Não fui o primogénito, pois em novembro de 1773, no dia 17, havia já nascido uma menina, a minha irmã Ana Maria. Anos mais tarde, em 8 de setembro de 1780, fomos presenteados com um irmão, batizado de José. Nasceu ainda o mano António Joaquim, cuja data não me recordo, e que vive há algum tempo na minha companhia.

Emocionado, fez uma pausa. Uma fugidia lágrima escorreu-lhe do olho esquerdo. Com o dedo indicador e de imediato, apagou-a.

- Desculpe-me. Comovi-me…

O interlocutor, boquiaberto, aconselhou-o a tranquilizar-se e insistiu na sua veemente vontade em o continuar a escutar.

Assim, prosseguiu.

- O meu pai foi militar do regimento de infantaria da guarnição desta Praça, embora a lavoura tivesse sido fundamental para o nosso sustento, tarefa encabeçada pela minha mãe. Éramos felizes. Bastávamo-nos com pouco. Apesar de tudo, todos nós tivemos instrução, assim como educação moral e religiosa. À medida que medrávamos, íamos escutando, sobretudo, pela voz de alguns conterrâneos que regressavam abastados, o quão era o Brasil uma terra venturosa, de oportunidades, especialmente de enriquecimento. Assim, quando atingi os 19 anos, em 1796, decidi arriscar e abalei sozinho. Tive consciência que os deixei chorosos e de coração partido. Quanto à viagem, ainda agora recordo como foi morosa e tormentosa. Havia carência de alimentos, nomeadamente os frescos que estava habituado a ingerir, pouca higiene, fracas condições sanitárias. Em dias de tempestade, era certo sentir náuseas. Dias houve em que era um suplício aguentar o calor abrasador. Cheguei a ter febre contínua durante 5 dias seguidos. Nada tinha para fazer a bordo. Tive momentos em que as saudades de casa apertaram e a angústia chegou a tomar conta de mim, mas quando isso acontecia recordava que havia prometido que iria retornar próspero.

Curta pausa, para ingestão de mais um trago de alvarinho.

- Quando avistei o Rio de Janeiro, fiquei maravilhado com a frondosa e luxuriante vegetação. Desconhecia da possibilidade de existirem árvores de altíssimo porte e de belíssima folhagem! Foi um bálsamo merecido após tão atribulada jornada. Quanto ao desembarque, este ocorreu num ambiente de grande burburinho, com movimento frenético de pessoas e bens. Contígua à embarcação que eu acabava de abandonar encontrava-se uma outra, denominada de galera, da qual, para meu espanto, eram retirados homens assustados, descalços, acorrentados com grilhetas, cuja pele era negra. Também algumas mulheres, de idênticas circunstâncias e características. Misto de indignação e curiosidade levou-me a questionar um marinheiro do que se tratava, tendo este dito que vinham de África e iriam ser comprados para trabalharem nas fazendas e as "fêmeas" iriam servir como criadas. Ali funcionava um mercado de escravos, também chamados de cativos. Fiquei chocado, mas iniciei caminhada, deambulando sem destino à procura de trabalho, até que deparei com um homem bem aperaltado que sonoramente anunciava que necessitava de um empregado para preencher uma vaga no seu comércio. Depois de ouvir as condições remuneratórias e porque também ainda não tinha tido mais nenhuma proposta alternativa e necessitava urgentemente de dinheiro para comer e arranjar hospedagem, aceitei. O meu caro ouvinte teria já ouvido falar num "homem de grossa ventura" chamado João Gomes do Valle?

- Não, de todo – prontamente respondeu o "historiador".

- Foi o meu empregador. Sensibilizou-me para a atividade mercantil. Servi-o com toda a dedicação e empenho. Trabalhei com afinco, fui um bom aprendiz, também o ajudei a inovar. Lucrei. Algum tempo depois, recompensou-me convidando-me para seu sócio. Após o seu falecimento herdei o seu negócio. Prosperei. Fiz parte da elite comercial da corte, matriculado na Real Junta do Comércio.

- Afinal de que ramo de negócio se está a referir? – questionou-o, embora já suspeitasse conhecer o conteúdo da resposta.

Apesar de ainda sentir incómodo a falar sobre o assunto, Joaquim prontamente detalhou:

- Importávamos artigos diversos, como por exemplo vinho, fazendas, sedas, ferragens e… negociávamos mão-de-obra africana. Em certos períodos também trazíamos, cumulativamente, marfim.

Perentório, o interlocutor interveio:

- Pretende o senhor dizer, mais precisamente, tráfico de escravos?

- Sim. No entanto, a partir de 1831, passou a ser ilegal, com a publicação da "Lei Feijó". Como nunca pretendi funcionar na ilicitude, paulatinamente fui-me desvinculando, com sincero arrependimento e muito amargurado. Penitencio-me por me ter aproveitado de tal atrocidade. Recordo que o vasto Brasil necessitava de muita mão-de-obra para as atividades agrícolas, havia uma dificuldade imensa em colocar os índios a trabalhar e os imigrantes não eram em número suficiente, pelo que nos aproveitámos…

Após uma ligeira pausa para abastecer o copo com mais vinho alvarinho, que mencionou estar a apreciar dada a sua notória frescura, continuou com o seu relato:

- Paralelamente, fui nomeado Capitão de Ordenanças do Segundo Regimento das Milícias de Minas Novas, um município de Minas Gerais onde foi descoberto ouro. Cumpri a minha missão e fui promovido a Tenente-Quartel Mestre graduado em Capitão do Regimento de Milícias da Corte, o que muito me honrou. Já estou reformado disso. Com o generoso pecúlio que amealhei, enveredei pela filantropia. Deste modo, decidi ligar-me à Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, como mesário e num certo período, assumi a provedoria. Tenho vindo ainda a colaborar financeiramente com quem de mim necessita. Não tenho descendentes diretos, pois nunca casei, nem tão pouco gerei filhos, pelo que "abro os cordões à bolsa" aos desamparados e, de sobremaneira, àqueles que, imbuídos de idêntico espírito empreendedor, precisam de capital para principiar…

- Uma espécie de "capital de risco", quer, portanto, dizer?

- Precisamente! Mas, tem de ser bem fundamentado! – frisou.

- Mas como o espírito negocial me corre nas veias, também me foquei no investimento imobiliário, que tem demonstrado ser uma rentável aposta, pois parte dele se encontra arrendado. O senhor já deve estar cansado de me ouvir?! – acrescentou Joaquim.

- Errado! Tenho vindo a escutá-lo com veemente interesse.

- Será que poderá fazer o grato favor de me indicar o caminho para a santa casa da misericórdia local? Talvez até acompanhar-me. Mas um pouco mais tarde. Que me diz? Tenciono apresentar-me pessoalmente. Apenas sabem da minha existência, atentas as verbas que generosamente lhes tenho vindo a fazer chegar.

- Desconfio que sei da verdadeira, quero dizer, da completa identidade de tão ilustre cidadão que é a sua pessoa! – exclamou o sagaz "historiador".

Pronunciando uma audível risada, Joaquim suplicou-lhe que, para já, não o referisse. Necessitava de auscultá-lo sobre o futuro.

- Vim cá com predisposição de colaboração humanitária, mas fundamentalmente à procura de projetos para investimento. Só intramuros, Valença transpira história civilizacional antiquíssima e impactante, com inúmeros e notórios vestígios que importa divulgar. É uma pérola! Desconheço o estado de desenvolvimento das suas freguesias e tenho a óbvia consciência do êxodo rural e de como foram severamente penalizados com as invasões francesas.

- Pois, pois, mas isso da Guerra Peninsular, aconteceu na sua época, mais de 100 anos decorreram desde aí, caríssimo Joaquim – comentou o interlocutor, em tom de graça.

- Desculpe-me a confusão. Por momentos esqueci que viajei ao futuro! Continuemos. Como se vem desenvolvendo o Alto Minho em geral e as localidades vizinhas, sobranceiras ao rio Minho, refiro-me a Monção e Melgaço?

Havia chegado a oportunidade de o "historiador" emitir a sua opinião:

- Por parte dos municípios tem havido bastante empenho, facilitando a instalação de indústrias criadoras de empregabilidade. No que toca à preservação, existe o eterno problema da afetação das verbas. Não dão para tudo e há que fazer as controversas escolhas. Frequentemente organizam-se atividades de âmbito cultural, mas o público assistente ainda é reduzido. A sociedade civil deveria ter também um papel preponderante, com iniciativa. A população, na sua maioria, não valoriza a herança imaterial nem a material que a rodeia. E, há algo que sempre me incomodou e que tem haver com a sensibilização das crianças, futuros adultos fazedores, para o orgulho nas raízes e no legado, para o desenvolvimento da criatividade e do sentido crítico. Ao plano curricular nacional, em cada região, haveria de haver uma disciplina complementar versando a realidade local. Outra área que merecia ser catalogada e difundida em pleno prende-se com o património histórico-militar e histórico-civil que abunda na região minhota - castelos, torres de menagem, casas-torre, assim como o incentivo ao turismo de cariz religioso, aprofundando o conhecimento dos inúmeros mosteiros, igrejas e capelinhas. Há público para tudo, desde que a oferta seja bem organizada, conduzida por quem domine o tema, que vai das palestras com letrados oradores, visitas aos monumentos, reprodução ou simulacro de eventos que tiveram notória relevância. E, muito importante, exigência da presença dos meios de comunicação.

Joaquim apercebeu-se de como em ambas as cabeças parecia existir um sistema de vasos comunicantes relacionadas com as perspetivas de desenvolvimento territorial.

- Bravo! Subscrevo as suas palavras. Do pouco que vi desde que cheguei, apercebi-me, por exemplo, da abundância de uma árvore introduzida no país, que, pelo que me informaram, se designa por eucalipto. Consta ser muito sensível à combustão. Ter-se-ão esquecido das autóctones, como o amieiro, o frondoso salgueiro e o valioso castanheiro? Se houver terreno baldio de dimensão apreciável que me facultem, apostaria no plantio destes e subsequente manutenção. A meu cargo ficará a remuneração dos trabalhadores florestais. Embelezar-se-iam as encostas e os prados! Se isso se concretizar, estou já a imaginar as agradáveis caminhadas que tais bosques poderão proporcionar.

- E reduzir-se-iam os terríveis fogos que no período estival assolam a região, pois são mais difíceis de arder. Tem o senhor a noção de que já ninguém tem rebanhos. Desapareceu a atividade pastorícia. Deixou de ser apelativa, não só pela dureza do dia-a-dia como pela deficitária contrapartida monetária - informou o "historiador".

- Ooh!! Os meus pais tinham meia dúzia de ovelhas em curral. O leite que ingeríamos era delas. O meu pai tosquiava-as e a mãe aproveitava a lã para tecer mantas para a nossa casa. Chegou a vender algumas. Lamento não ter nenhuma de recordação. Mas, talvez seja a altura certa de a retomar. Proponho-me avançar com esse projeto. Se for justamente recompensado, não será difícil arranjar três ou quatro pessoas, de idade adulta, por que não um casal, que apreciem a natureza. A título experimental, adquirirei as ovelhas que irão alimentar-se limpando os terrenos baldios das freguesias escolhidas, solicitarei aos "regedores" que divulguem pelos cidadãos que os rebanhos estarão à disposição para "desbastarem" os seus terrenos incultos. Tais edilidades deverão retribuir com uma verba compensatória previamente orçamentada para o efeito. Estes ruminantes bovídeos serão devidamente protegidos pelos canídeos que irei buscar a Castro Laboreiro. As fêmeas, bem nutridas, irão gerar muito leite e crias. Utilizarei um casebre abandonado para o renovar como queijaria, paredes meias com um atelier, com alguns teares para a feitura de mantas e afins, aproveitando a lã tosquiada, e onde poderão ser dadas aulas de tecelagem. O produto da venda da carne, dos queijos e dos panos será maioritariamente para os pastores e os queijeiros. O remanescente irá abatendo ao meu valor investido. Conquanto é dirigido a um nicho, julgo estar a salvaguardar uma tradição, ativar uma profissão praticamente extinta e a contribuir para a limpeza dos terrenos.

- Talvez um pouco "poética" a ideia. A intenção é muitíssimo boa. Aliás, as mantas têm uma versatilidade de utilizações em termos decorativos! Sucesso, é o que lhe desejo na sua concretização – opinou o interlocutor.

- Apetecia-me comer um doce conventual que os meus pais costumavam comprar no Natal e na Páscoa. Era uma receita deixada pelas freiras franciscanas do Convento do Bom Jesus de Valença. Recordo que tinha calda de vinho tinto. Uma delícia! Será que existem à venda?

- Está a referir-se aos "borrachinhos". Sim, casualmente. Mas a nível de restaurantes é difícil de encontrar. Só procurando. Embora considere que deveria fazer parte da ementa e sempre disponível na maioria das pastelarias e restauração em geral, como especialidade regional. Em épocas festivas, em algumas casas particulares de pendão mais tradicional, como a minha, sempre há essa sobremesa.

- Ainda pescam a truta? Nunca me interessei verdadeiramente pela atividade piscatória, por necessitar de paciência e eu sempre fui muito enérgico. Mas tinha de acompanhar o meu pai nas suas incursões no rio Manco, na aldeia de São Cristovão de Gondomil. Partíamos bem cedo, a pé, munidos de duas canas e de uma merenda. A ponte romana era o sítio onde nos instalávamos a pescar, debruçados sobre esse estreito curso fluvial, proveniente da montanha, com águas cristalinas, frescas e puras. O habitat, por excelência para esses peixes! Trazíamos o alforge cheio delas e nesses dias havia repasto melhorado à noite, pois a minha mãe grelhava-as, introduzindo uma fatia de presunto na barriga, o que lhe conferi um paladar especial. Faziam-se campeonatos, tal era a quantidade de pescadores e a viabilidade de recolha do pescado.

- Amigo Joaquim, se agora lá for e passar o dia, não irá ver nenhuma! A poluição tem tido efeitos devastadores. Há que voltar a tomar medidas para poder ser retomada a pesca. Corre numa zona bela e verdejante, aqui e ali, com reminiscências de construções em pedra de velhos moinhos desativados. A maioria dos terrenos junto às margens, outrora de cultivo, em zona de minifúndio, estão abandonados e tapados com tojo. Já dei a sugestão ao município para que fosse equacionada a abertura de um carreiro térreo marginal ao longo do Manco, que permitisse percursos, ligando ao parque de lazer inaugurado no ano transato.

- A população, à noite, de que se entretém? – perguntou Joaquim.

E continuou.

- Sou um verdadeiro notívago. Aprecio e sou assíduo frequentador do Teatro da Corte. Gosto de tudo um pouco, desde as peças mais realistas, às de cariz mais romântico, mas o que mais gozo me dá assistir são as comédias de costumes, com forte pendor de humor e sátira. Por falar nisso, tendes algum em Valença?

A resposta não chegou a tardar.

- Na atualidade possuímos as "ruínas" de um! Mas já teve os seus dias de glória! Desde 1876, ano da sua construção e ao longo de décadas, acolheu em palco nomes grandes do teatro nacional e estrangeiro. Mas não se esgotou nessa forma de arte, pois a projeção de filmes, a realização de bailes e outros eventos culturais também aconteceram.

Esta era mais uma área que o brasileiro valorizava. Sensível à criação artística, deixou transparecer um brilho mais intenso no olhar. Instintivamente soou na sua mente a "campainha" do mecenato. Oportuna questão foi colocada:

- Onde se localiza? É visitável?

- Próximo das instalações da Santa Casa, na rua de S. Francisco, nas traseiras da igreja de Santo Estevão. Passaremos, em breve, nesse arruamento. Encontra-se encerrado. Quanto a efetuarmos uma visita, só a câmara municipal poderá esclarecer dessa possibilidade.

Inexplicavelmente o silêncio abateu-se sobre ambos. Pensativos, permaneceram algum tempo, imensurável, até que Joaquim retomou a palavra, neste caso para fazer menção à família:

- Parentes não devo ter, em Valença. Os meus irmãos machos fizeram vida pelo Brasil. A Ana Maria ficou-se por cá, pois o marido, Francisco Coelho de Figueiredo, com quem celebrou matrimónio em 25 de maio de 1795, tinha pavor de andar de barco! Mas não se prolongou por muitos anos a estadia nesta terra. Receosos e fugindo do confronto durante a guerra peninsular, já com os descendentes nascidos – duas meninas e um "moleque", fixaram-se mais a sul, perto do Porto, no concelho de Bouças, freguesia de S. Mamede Infesta, lugar dos moinhos de Picoutos.

- Só pesquisando, só pesquisando… - sugeriu o "historiador".

Este, acabou por formular a questão que o inquietava desde início:

- Perdoe-me a indiscrição, mas qual a origem das condecorações que ostenta?

- Sinto-me envaidecido e honradíssimo pelas mesmas. Representam os muitos e variados prémios de mérito e de virtude atribuídos por Sua Majestade El-Rei D. João VI e pelo neto, o imperador D. Pedro II. Com humildade e sentido de dever e serviço os recebi. Como não os tenho todos em memória, sou portador de uma lista que os enumera.

A trémula mão puxou do bolso do colete o imprescindível monóculo. Prosseguindo com a retirada de uma folha de papel amarelado, que delicadamente desdobrou.

- Para além do que já lhe dei conhecimento, queira então ter a gentileza de prestar atenção ao que vou ler: fui, pela Regência - D. João VI, nomeado membro da Comissão Liquidante das presas brasileiras pelo cruzeiro inglês na costa de África, assim como da Comissão de Superintendência das subscrições para o novo Banco da Corte; faço parte da Junta Administrativa da Caixa de Amortizações desde 1828; sou Comendador da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; nomeado Cavaleiro da Real Ordem de Cristo à data de 1821 e Professo da Imperial Ordem de Cristo em 1826; Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro, em 1826; Comendador da Imperial Ordem de Cristo em 1829. Mais ainda, recentemente, em 1844, Grande do Império, Fidalgo Cavaleiro da Imperial, por alvará de 20 de julho de 1844, atribuído por Sua Alteza Imperial D. Pedro II, tendo antes recebido o título de Barão de Guaratiba, à data de 5 de maio de 1844. No ano transato, precisamente em 15 de novembro de 1846, honrado como 1º Visconde de Guaratiba. Foi criado o inerente brasão de armas!

- Impressionante! – limitou-se a comentar o interlocutor.

- Estou convencido de que não foram as últimas insígnias que recebi. Constou-me, em surdina, que a comenda da Imperial Ordem da Rosa me vai ser atribuída. Assunto para o qual lhe solicito mantenha em recato.

- O meu amigo está oficialmente por mim identificado!

- Faça a fineza de não pronunciar o meu nome em público, pelo menos, para já. Está na hora de visitarmos a Santa Casa. Encaminhemo-nos, então, para esse destino.

Percorreram a acanhada rua Direita. O brasileiro não resistiu a dar umas espreitadelas ao interior das lojas de atoalhados e vestuário que proliferam.

Desembocaram numa praça situada no extremo norte das muralhas. Aqui se encontrava o edifício antigo que já foi hospital e permanece a misericórdia.

- Recordo-me bem disto! – afirmou Joaquim.

Penetraram no amplo e austero hall no exato momento em que uma funcionária saudava o "historiador", inquiria do que pretenderiam, mas mirava com desconfiança o seu acompanhante.

- Faça favor de me anunciar ao senhor Provedor – pediu.

Enquanto aguardavam, Joaquim Ferreira observava a grandiosa representação sua, materializada no quadro a óleo, que ocupava a parede do lado esquerdo. Surpreendeu-o, aturdiu-o e acabou por o comover.

- Muita emoção, muita emoção – era o que somente conseguia balbuciar.

Sorridente, um bem parecido homem desceu a escadaria, saudou com um esmagador aperto de mão o "historiador" que retorquiu, exclamando:

- Caríssimo Provedor, é com imenso prazer e honra que lhe apresento um ilustre benfeitor desta casa, o Senhor Joaquim António Ferreira, Barão e Visconde de Guaratiba, chegado do Brasil para uma longa estadia.

Dissimulando a expectável reação de assombro, o presidente da instituição reagiu dando-lhe um forte abraço.

- Seja muito bem-vindo! Há muito que desejávamos conhecer tão distinta, reputada e generosa pessoa!

- Muito grato – retorquiu Guaratiba.

- Queiram acompanhar-me à sala de reuniões, no piso superior.

Enquanto atentamente iam ouvindo os relatos das valências que a Santa Casa disponibiliza, da saúde financeira e necessidades e projetos para as mesmas e, porque a hora de almoço se aproximava, o Provedor sugeriu que o acompanhassem na almoçarada informal que já havia agendado com o Presidente da Câmara de Valença, seu amigo de longa data e homem de ação. Iria telefonar-lhe a avisar que se faria acompanhar do companheiro "historiador" e de um ilustre e inesperado convidado.

Aceitação imediata.

Perspetivava-se um encontro ao mais alto nível. Convencido de que iria ser frutífero e promissor para as partes envolvidas e para o fim último, o território, o Visconde Joaquim António Ferreira não podia sentir-se mais satisfeito.

A Galega de Castro

Julho 2023


BOAVENTURA E BONIFÁCIO - Os monges vinhateiros

(ficção)

Bem moços abraçaram o movimento monacal. Abdicaram, alvitra-se que por genuína opção, da vivência dos comuns em prol da espiritualidade e da prática religiosa. Sempre foram fundamentando este chamamento como vocação para imitar Cristo.

Se a oração visava a salvação das almas, o trabalho da terra, árduo, suado e humilde, amiúde extenuante, garantia a fuga do mundo e das suas tentações.

Subsistiam da afincada dedicação à produção de azeite, cultivo de cereais, privilegiando o milho. As hortícolas compunham o plantio. Retiravam das colmeias o mel de flor de laranjeira. Embora a dietética frugal constitui-se o lema da dieta monástica, a criação de aves de capoeira abundava.

A repartição da produção balanceava entre o autoconsumo, a dádiva e a troca pecuniária.

Ora e labora era a rotina destes monges agrónomos na sua plenitude.

Esta austeridade autoimposta acabava por ser colmatada pela ingestão regular de um néctar fermentado proveniente do mosto das frutadas videiras da granja que zelosamente cultivavam. O vinho enxotava estados de melancolia e apatia, restituía forças, funcionava como um ótimo nutriente.

Bebiam com a moderação que se impunha! Somente durante as refeições...

Tal bebida, sobretudo a proveniente de uvas brancas escolhidas para evitar manchar os paramentos, era indispensável no ritual da cerimónia eucarística diariamente celebrada no mosteiro.

Observadores dedicados, empenhados, entusiastas e curiosos das necessidades da vinha e da sua adaptação ao território, estudiosos autodidatas do terroir do sudoeste português, Frei Boaventura e Frei Bonifácio foram, ao longo da sua vida, encarregues de todo o processo vinhateiro, desde a plantação, da cava do terreno, passando pela poda, apanha das uvas, pisa em lagar, prensagem, maceração, trasfegas e amadurecimento nas pipas. O conhecimento que foram adquirindo desta cultura, as experiências efetuadas, as técnicas evolutivas, tudo se foi aprimorando e profissionalizando com a mira numa produção variada de tintos e brancos, aguardentes, licorosos, sobretudo agradáveis ao olfato e ao paladar. Evidenciaram-se como uma verdadeira dupla de produtores/escanções!

Deveras dinâmico, o ruborizado Frei Boaventura tomava sempre a dianteira nas provas. Sorridente, vertia um pouco de vinho na boca, mastigava, verificava da sua acidez ou doçura, da adstringência, da sua corporalidade, dos taninos e, de sobremaneira, do teor alcoólico.

- Hmm, predomina sabor a madeira com laivos de framboesa, aveludado, encorpado, com fim de boca longo! Muito bom! Ora provai este "tinto", meu irmão! Dizei da vossa justiça... - dirigindo-se a um expectante e bonacheirão Frei Bonifácio.

A Galega de Castro - outubro 2022

MONSENHOR JOSÉ GONÇALVES FERREIRA

Ao alvorecer, diariamente e antes de se dirigir para a matutina celebração litúrgica no templo de S. Pedro dos Clérigos, canonicamente designado por igreja do Príncipe dos Apóstolos, o rechonchudo Monsenhor José Gonçalves Ferreira invariavelmente caminhava apressado na direção da rua do Ouvidor, segurando com a mão esquerda o imprescindível capelo negro em sintonia com o tradicional aceno da oposta parte final da extremidade braçal para os costumeiros madrugadores fluminenses com quem se cruzava, tendo sempre em mente ser o primeiro a rodar a chave da porta de acesso às instalações da redação do jornal "O Apóstolo - periódico religioso, moral e doutrinário consagrado aos interesses da religião e da sociedade", que havia fundado em 1866.

O emotivo e bem-humorado presbítero, empático, afável e interventivo, com talento para a escrita, instruído e com predicados de pedagogo e pregador, indefesso arauto do catolicismo, utilizou o jornalismo - a sua verdadeira vocação - para transmitir e expandir o pensamento e a doutrina católicos.

Assumiu a liderança e era o redator principal. A tiragem era elevada, permitindo a distribuição por todas as províncias brasileiras.

Folhas e artigos diversos pulverizavam a ampla escrivaninha, onde o tinteiro e a pena eram obviamente peças indispensáveis. Por vezes desorientava-se na dispersão material, mas nunca no pensamento estruturado e doutrinal que vertia a preceito, com rigor, clarividência, instruindo sob os princípios teológicos e filosóficos da doutrina da Igreja Católica.

Este paladino, firme na sua ortodoxia religiosa, deveras rígida, que conceptualmente colocava a família como base da sociedade e responsável pela educação religiosa das crianças, granjeou ferozes opositores nos adeptos do "espírito moderno" e da maçonaria. Durante os 17 anos em que foi redator daquele apelidado órgão católico da Corte do Imperador Pedro II, e que culminaram em maio de 1882, jamais cedeu ou se rendeu às ofensas e injúrias, sacrificando valores pecuniários próprios para a manutenção do periódico até ser decretada a falência com a justiça a determinar o leilão de bens, inclusive a tipografia associada.

Os leitores do escolástico "Apóstolo" beneficiavam de artigos de cariz filosófico e doutrinal sobre textos da bíblia, críticas às teorias dos seguidores do iluminismo e aos maçons, notícias do bispado e do vaticano, agenda dos eventos religiosos, publicidade ao comércio de paramentos, velas, relicários, oratórios e toda a parafernália de objetos religiosos, sem declinar a obvia menção a batizados, casamentos e funerais.

Foi da sua autoria o lançamento, em 1880, de um repositório de moral e religião, de 356 páginas, que intitulou "Almanak do Império de Santa Cruz". Considerado pelos seus seguidores como "um verdadeiro antídoto ao veneno literário que corria na sociedade da época", de leitura variada e instrutiva, incluía uma secção literária com artigos em prosa e em verso.

Iniciado no movimento monacal, professou na Ordem de S. Bento até 1850, altura em que secularizou. Alvitra-se que tal vivência de clausura monástica, cujo princípio fundamental normativo se baseia em "Ora et labora", condicionou e influenciou todo o seu assertivo percurso posterior.

Uma das expressões da sua generosidade estava implícita na forma acolhedora como recebia, na capela privada da sua residência em Icarahy, os múltiplos fiéis para a celebração da missa dominical.

Tratando-se de uma personagem influente, conhecida, popular, inserida num poderoso corporativismo religioso, polémica e combativa nos seus ideais, foi alvo da inequívoca crítica e sátira de cariz religioso que imperava na segunda metade do século XIX, suportadas sobretudo pelos emergentes ideais do anticlericalismo, este motivado pela forte influência política e social que a Igreja Romana detinha.

Monsenhor José Gonçalves Ferreira era detentor de uma avantajada compleição física, ainda que de estatura mediana, alimentada por um insaciável desejo de comida. Um garfo e tanto! Ora tal constante apetite colidia com o conceito de um dos sete pecados mortais, a gula, que em períodos de penitência, jejum e abstinência, nomeadamente na Quaresma, deveriam obedecer a alguma moderação da sua parte.

A presença, no período que medeia entre 1875 e 1879, por terras de vera cruz, do afamado caricaturista lisboeta Rafael Bordalo Pinheiro, observador atento das realidades sociais, satirizando as mesmas, originou que este também tivesse sido atraído pela figura peculiar do eclesiástico e de sobremaneira pela sua almejada e constante vontade de comer.

Deste modo, na edição nº 336 do jornal "O Mosquito", de 8 de abril de 1876, a ousada caricatura deste respeitável embora guloso Reitor banqueteando-se junto a várias iguarias, destaca-se sob o título de "Jejuns do Reverendíssimo".

Aos 21 dias do mês de março de 1883, aos 57 anos, vítima de embolia cerebral, partiu do mundo dos vivos este operário da fé, com honrarias dignas de alguém que atingiu vários cargos na Cúria Pontifícia, entre outros, como Vigário do Bispado do Rio de Janeiro e Protonotário Apostólico ao tempo do Papa Pio IX. Durante vários anos assumiu a reitoria do Seminário de S. José, sito ao Morro do Castelo. Foi ainda agraciado como cavaleiro da Imperial Ordem de Cristo e comendador da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém.

PERGUNTA QUE SE IMPÕE: Qual o propósito destas dedicadas palavras a este Senhor?

Pois bem, José havia nascido na cidade do Rio Grande do Sul em 8 de agosto de 1826, fruto do casamento do homónimo português, nascido em 8 de setembro de 1780 na vila portuguesa de Valença do Minho, e de uma senhora daquela unidade federativa, a Lina de Jesus Silveira, alcunhada de "respeitável matrona".

O dito valenciano foi irmão de Joaquim António Ferreira, nascido a 4 de fevereiro de 1777, no dito burgo minhoto, havendo rumado para o Brasil e que viria a ser o 1º Visconde e 1º Barão de Guaratiba e de uma menina, a Ana Maria Gonçalves Ferreira (a) (*17 de novembro de 1773), que nunca abandonou a terra que a viu nascer e que, após o seu enlace com o conterrâneo Francisco Coelho de Figueiredo, curiosamente pariu, em 30 de dezembro de 1808, Joaquim José Ferreira, o 2º Barão por herança titular do seu referenciado tio.

Teve o nosso abade jornalista mais três irmãos, todos nascidos no Rio Grande do Sul. Dois deles saíram da terra natal e fizeram vida no fervilhante Rio. Um deles, o Joaquim José, também fervoroso católico, foi mercador e também presidiu ao Banco do Comércio e ao Banco Predial, com sede naquela cidade à beira-mar plantada. A outra, uma menina chamada Joana, que celebrou esponsais com um seu parente também emigrado e português de S. Mamede de Infesta, o Rodrigo Pereira Felício - 1º Conde de S. Mamede, filho de José Pereira Felício e Maria Benta Gonçalves Ferreira ... Figueiredo. Eram primos, pois a Joaninha era filha do português José Gonçalves Ferreira e Rodrigo neto de (a) Ana Maria Gonçalves Ferreira - ambos, portanto, sobrinhos do dito "Guaratiba". Um terceiro mano, batizado de Manuel José, terá fixado residência no local de nascimento, atento o facto de aí ter falecido e sido sepultado.

Fonte principal: Hemeroteca Digital Brasileira

A Galega de Castro - março de 2022

A PEÇA

Ignora-se e conjetura-se sobre a origem, sabe-se da proveniência última.

A singular peça, fiel ao seu derradeiro e coabitante senhorio, assistiu impávida, mas atenta, às incursões deste sapiente historiador pelos trilhos da exploração arqueológica, num deambular aventureiro, entusiasta, gratificante, raiado de vivenciais laivos libertários.

Robusta, espessa próxima do colossal, primorosamente delineada e entalhada, cativante, seduzindo pela raridade e originalidade, em perfeita similitude com o carácter mais enfatizado do seu dono.

Para além da peculiar aparência e dos delicados contornos, alvitra-se que a simbologia dos componentes que integram a mesma tenha contribuído para o fortíssimo elo de união gerado. A representatividade dos deuses do mar nas imagens dos cavalos-marinhos, configurando as ofertas de Posídon e Neptuno, alusivas à sorte, à boa energia, à liberdade e ao poder, numa perfeita parceria com aquilo que a força, firmeza e esperança são retratadas na âncora destacada ao centro, tudo envolto numa abordagem mitológica, rematada com as envolventes amarras e o salpicado de plantas marinhas. Zelava-o com distinção, coroando o acesso ao seu aposento privado!

Tal qual o observador cavalo-marinho no seu habitat, também Manuel Maria Maia pairou na vida, lentamente, ao seu ritmo, quase flutuando no seu mundo das escavações, das contributivas pesquisas, dos estudos e palestras arqueológicos, das surpreendentes descobertas, sobretudo relacionados com a romanização.

A Galega de Castro - fevereiro 2022

A "Casa Branca"

(memória)

Uma régua de madeira e um lápis eram materiais bastantes para verter em papel o imaginário dos desenhos urbanísticos de traçado retilíneo que despreocupadamente, em sossego, de mansinho, deveras consolado, esboçava com destreza à mesa da sala da ampla habitação de fachada revestida de azulejo verde escuro localizada nas redondezas do jardim d'Arca d'Água.

- Tens habilidade - sempre ia comentando Conceição, enquanto, com meiguice, espreitava debruçada sobre o ombro esquerdo do marido.

- Estou entretido. Somente devaneios - era o usual e conciso comentário.

Mas, intimamente, ansiava algo construído de raiz, sobretudo ao seu gosto e seu.

A força do oceano e o mirar o horizonte, como perspetiva futurista de ir mais além, de progredir, inspiravam-no e motivavam-no. Os habituais passeios domingueiros na zona marítima do Cabo do Mundo, localidade nos arredores do Porto, induziram à concretização do seu sonho e contribuíram para que se decidisse pela aquisição de um terreno nas imediações da praia do Paraíso, negócio contratualizado com o abastado lavrador e proprietário agrícola Fernando Silva.

Havia então de avançar com a construção. Decorria o ano de 1965. Jaime Gonçalves de Castro, com 46 anos, pretendia algo futurista, contemporâneo.

Em comentários avulsos com um cliente celoricense da firma de lanifícios de que era sócio, quanto à elaboração do inerente projeto arquitetónico, foi por aquele sugerido que auscultasse um seu irmão recentemente licenciado com distinção pela Escola de Arquitetura da cidade. Apresentou-lhe então José Martinho de Moura Peixoto.

Moura Peixoto, nascido em 1934 em Celorico de Basto, havia casado com Helena Loureiro da Cunha Leão, também diplomada na mesma área e filha do notável, inovador e modernista arquiteto portuense Fernando Manuel Corrêa da Silva da Cunha Leão, um dos associados da ARS Arquitetos, responsável, entre outras obras de destaque, pelo Palácio Atlântico, erguido em 1951 na baixa da Invicta.

Não será, pois, de estranhar que a convivência familiar conceptual aliada à corrente de tendência muito influenciada pelo conceito já há algum tempo prevalente no norte da europa, o estilo hygge, onde a ideia de simplicidade, a valorização do essencial, o conforto e bem-estar eram a nota predominante, tivesse subjacente na conceção do desenho de uma secura purista e geométrica, com desníveis nas assoalhadas, elaborado para uma habitação de 2 pisos, com 5 quartos, duas salas, saleta, garrafeira, cozinha, quarto de empregada, despensa e garagem, numa estrutura mista de alvenaria de granito e betão armado, onde o acabamento exterior fosse areado fino pintado de branco.

A madeira, elemento da natureza, foi dominante. Utilizada nas portas exteriores e caixilharia, soalho e escadaria interior, apontamentos decorativos vários, marcou distintivamente. Por ser densa e forte, detentora de algum brilho e tonalidade marron escuro, resistente a fungos, insetos e às variações climatéricas foi aconselhada a sucupira, nativa do Brasil.

Jaime e família rejubilaram de entusiasmo com a modernidade da proposta apresentada por Moura Peixoto, que estampava equilíbrio entre a sofisticação e a simplicidade.

Em 21 de julho de 1966 a edilidade matosinhense aprovou o projeto e respetivo caderno de encargos.

Seguindo idênticos parâmetros, a decoração optada foi de estilo nórdico, visualmente classificada de funcional, minimalista, robusta, despretensiosa embora muito confortável, de traços retos e elegantes. A escolha da sua feitura recaiu numa equipa de marceneiros com tradição na arte, especializados e competentes, com fábrica de móveis no lugar de S. Martinho, na gondomarense localidade de Jovim. Foi assim depositada total confiança nos "Irmãos Reunidos - Fernando e Rogério de Magalhães, Lda".

No verão de 1967 consumou-se e inaugurou-se a tão sonhada e desejada obra!

O resultado superou o expectável!

Fotografias da mesma foram publicadas numa revista da especialidade.

Foi palco de muitas alegrias, verões bem passados, agradáveis convívios, inúmeras festas de garagem. Usufruída por diversos que a visitavam e inclusive pernoitavam, a todos acolheu como exímia anfitriã. Testemunhou ainda a harmonia familiar.

O decorrer do tempo, alguma degradação do enquadramento urbano circundante, a instalação de uma refinaria e o atrativo por locais mais aprazíveis motivou o seu progressivo abandono. Habitada com parca regularidade, culminou na sua alienação, após o falecimento de Jaime, o seu "maestro".

As recordações e as saudades permanecem, com algum desconsolo, mas sem mágoa. Até porque as plantas e todo o projeto perduram na posse dos herdeiros e, quiçá, talvez algum dos descendentes ou vindouros, imbuídos de idêntico espírito empreendedor de Jaime, reponham ou refaçam esta obra de arquitetura intemporal!

Galega de Castro - novembro 2021

O "Senhor Lima"

Nasceu na raia beirã, em 17 de agosto de 1850, numa localidade antiquíssima, a 650 metros de altitude, vizinha da ribeira de Aguiar, a "Vermeosa", longínqua dos centros de decisão reinantes.

Não obstante a envolvente física, nomeadamente as limitações da morfologia e a rudeza granítica territorial, parcamente florestada, com grandes amplitudes térmicas, a falta de alternativas laborais à atividade rural hereditária e preponderante na região, quase sempre atingiu os seus intentos, soube moldar-se, adaptar-se e tirar proveito das oportunidades com mestria.

Conjuntamente com os irmãos, duas raparigas e dois moços, medrou em berço de prata, assente num confortável ambiente pecuniário, beneficiou da escolarização, de uma cultura letrada, numa época em que a alfabetização era baixa. Idêntico espírito pairou subjacente ao empenho que, já homem feito e pai de família, demonstrou na primazia dada à formação da descendência.

Além dos olhos de um brilhante e indiferenciado tom claro, desde que se tornou num amadurecido e janota fedelho, que também demonstrava olho para o negócio.

Diligente quanto baste, bafejado pelos dotes de oratória, salpicado de pingos de ambição, pragmático e confiante, sempre bem apessoado, a supremacia da etiqueta, simbolizava o partido perfeito para qualquer rapariga prendada das redondezas.

Curiosamente ou não, veio a realizar esponsais, em 27 de maio de 1874, com uma proprietária da contígua freguesia de Escalhão, da família Paiva, a Ana do Anjo, bonitinha, minúscula tal qual uma garota, apesar dos seus já 38 anos celebrados de solteira. Contava então António Augusto de Lima Aguillar uns joviais 23 anos de idade.

O enlace deu fruto no feminino. Três preciosas e delicadas donzelas, a Isabel Adelaide, a Laura Augusta e a Francisca Amélia vieram alegrar o lar. "As meninas", como habitualmente se referia às mesmas.

Paternal na sua magnitude, mimava e adorava as preciosas pequenas, impondo, contudo, disciplina e rigor. A educação delas era essencial para atingirem um futuro consentâneo com a sua condição. Sob os auspícios do seu irmão abade na Fortaleza de Almeida, providenciou, entre outras iniciativas, que fossem alvo de aulas de cariz particular com uma capacitada professora moradora naquela vila, a D. Benedita, para o incremento dos lavores, da música e da escrita.

Simultaneamente, assumiu a óbvia ocupação de proprietário rural cumulativamente com a gestão de um vasto conjunto de artigos rústicos e "urbanos", parte herdados, outros incluídos por matrimónio, outros tantos adquiridos. Tais propriedades abrangiam, naturalmente, com destaque a Vermiosa e Escalhão, muitas em Vilar de Torpim, várias em Algodres. O plantio consistia em trigo, oliveira, amendoeira e primordialmente vinha, cujas tarefas da faina agrícola eram efetuadas por conterrâneos contratados a quem pagava à jorna. O produto destas colheitas era alvo de comercialização. Na área da quinta onde residia sempre existiam anexos com varas de porcos, que também eram destinados a negócio. Pontualmente também transacionava as mulas mais velhas por outras mais robustas, pois era essencial que estes animais estivessem na sua melhor forma para puxar as carroças que transportavam os produtos agrícolas, a título exemplificativo, para Barca d'Alva, com o fim último de serem carregadas em jangada até outras paragens nas margens do rio Douro. Recolhia as rendas do casario que alugava nas várias aldeias, sempre zelando pela sua manutenção básica quando necessário, notas detalhadamente registadas em livro para o efeito.

Várias vezes eleito como juiz ordinário (à época já sem bastão...) em Escalhão, onde havia fixado residência após os esponsais, atento seu perfil de autoridade com responsabilidade e seriedade.

Desde que nos seus bolsos começou a abundar aquele pedaço de metal suporte à troca de bens que se assumiu como um agente de crédito, cooperando com as populações, sempre com a contrapartida de pagamento de juros, contabilidade que rigorosamente controlava e minuciosamente anotava em caderno próprio. Esta atividade de banqueiro concelhio proporcionou-lhe influência e respeito. E, de sobremaneira, proveitos!

Em Vilar de Torpim era sobejamente conhecido pelo "Senhor Lima", o dono da mata da figueirense Serra do Vieira.

Este interessante personagem é detentor de raízes ibéricas, atento o seu ramo "Aguilar" ser proveniente da antiga paróquia de Santa Cruz de Lumiares, em Armamar, ao qual se juntou a apelido "Lima", oriundo de "Fregeneda del Duero", província de Salamanca.

A Galega de Castro - Julho -2021


(Subsídios para entrevista/artigo s/Património - março/2021)

Casa da Portela

Nas memórias paroquiais de 1758 o Lugar da "Portella" constava da toponímia e por consulta aos assentos valida-se a naturalidade de vários nativos naquele local.

Da atual "Casa da Portela", assim informalmente referenciada pelo triplo motivo de se situar no mencionado lugarejo, de ao longo do tempo os seus residentes serem conotados com essa designação e porque nos documentos oficiais estarem tais pessoas a si adstritas, desconheço a data exata da sua construção. De acordo com o gravado numa pedra jazente num dos portões de acesso teria sido a de 1849. Contudo e porque existem registos de nascimento reportando datas anteriores, aponto para que tenha ocorrido num momento precedente, tendo o ano referenciado estar relacionado como marco de ampliação urbanística ou mera obra de manutenção/restauro. Antes das últimas obras de remodelação mandadas efetuar pelo meu Pai, Jaime Gonçalves de Castro, nos inícios dos anos setenta do século XX (finalizaram-se em 1972), recordo, vagamente, a existência de uma velha ala, correspondente a uma ampla sala, cujo soalho em rangentes tábuas largas de madeira, e onde dois quartos paralelos, ao fundo, sem porta de acesso e com a entrada em forma de arco, inseridos em ambiente escuro e abandonado, representavam típicas alcovas que preenchiam as minhas medrosas fantasias!

A casa e sua envolvente correspondem às características da antiga propriedade rural de lavradores abastados. Permanecem os tradicionais espigueiro, eira e tanque com água corrente. Mais uma vez, por consulta a escrituras e documentos similares, concluiu-se da existência no património familiar de um numeroso rol de prédios rústicos de cultivo e terrenos de mato e arvoredo.

Vizinhança mais idosa ainda menciona o quão hospitaleiros e acima de tudo solidários eram os habitantes da casa, dando alimento aos pobres e permitindo a sua guarida no aposento ainda existente no cabano.

Lamentavelmente e porque não foi possível um acompanhamento meticuloso e permanente do restauro, numa época em que os apelos ao modernismo e a sensibilidade da construção civil para a preservação era quase inexistente, alguns pormenores foram definitivamente amputados e destruídos. Refiro-me, a título de exemplo, aos tetos em estuque trabalhado da sala de visitas e ao de madeira em cesteira que encimava a zona do comedor, aos rodapés altos, às portas com painéis almofadados e com vidros coloridos onde se destacavam as maçanetas em porcelana, aos banquinhos em pedra junto às janelas.

Retroagindo familiarmente, a jovem Maria Fernandes, minha bisavó paterna, nasceu em 24 de fevereiro de 1860 e faleceu em 1932. Filha de João Joaquim Fernandes (nascido em Selhães em 15 de dezembro de 1829) e de Ana Gonçalves (nascida na Portela no primeiro dia de janeiro de 1827), cujo enlace ocorreu em 11 de abril de 1855. Por seu turno, a Ana era filha de Francisco José Gonçalves e de Maria Luísa Barbosa que tinham celebrado esponsais a 4 de janeiro de 1818 e residiram na Portela. O referido João Joaquim, teve como pais José Bernardino Fernandes e Rosa Teresa Pedreira.

A título de curiosidade e retroagindo um pouco mais no ramo da minha bisavó "Maria Fernandes", direi ainda que o Francisco José supra era resultado da união religiosa de João Manuel Gonçalves e de Rosa Gonçalves, neto paterno de António Gonçalves e Teresa Rocha, neto materno de Domingos Gonçalves e de Fabiana da Ponte, todos registados nos respetivos assentos como residentes no lugar de Selhães. Quanto à Maria Luísa Barbosa, teve como pais um casal relacionado com o lugar de Olo chamados de Manuel José Barbosa e Maria Fernandes, sendo neta paterna de João e Maria Barbosa, neta materna de Bernardo Fernandes e de Maria da Ponte, estes últimos do lugar da Portela.

Sabe-se que Maria não foi a primogénita, pois aos trinta e um dias do mês de janeiro de 1856 tinha vindo a este mundo a Rosa, seguindo-se, a 24 de junho de 1857, José Manuel, ordenado padre em 1880 no Seminário de Braga, que viria a ser Abade em S. Veríssimo de Tamel (Barcelos), posteriormente em Forjães (Esposende), depois em S. Pedro da Torre e Cristêlo Covo (Valença), finalizando em S. Fins (Valença). Vestígios palpáveis do seu especial e particular interesse pela literatura em geral ainda hoje existem na nossa posse. Conforme consta na obra intitulada "Livro da Clerezia Valenciana" da autoria do Major Alberto Pereira de Castro, os "antigos" sempre graciosamente comentavam que quando dizia missa em Gondomil tinha por hábito chamar os paroquianos por um corno.

Quanto à Maria Fernandes, sei que casou em Gondomil, à data de 7 de fevereiro de 1884, contava 23 anos, com Manuel Gonçalves, de 22 anos, o meu bisavô, portanto. Ele tinha nascido no Lugar de Lagoa, em 30 de março de 1861, tendo como progenitores António José Gonçalves (filho de José Gonçalves e Mariana Pereira de Castro - do Lugar de Selhães) e Maria Luísa Pedreira (nascida em 1828 e filha de António José Pedreira e Maria Luísa Gonçalves - do Lugar da Lagoa), cujo casamento tinha ocorrido aos 10 de novembro de 1855. Ficaram os nubentes (Maria/Manuel) a residir na dita casa natal da Portela.

Da sua descendência constaram 6 nados vivos, a saber: Júlio José Gonçalves, nascido em 2 de novembro de 1884, com descendência; António (António Gonçalves Pedreira), o meu avô paterno, no primeiro dia do mês de outubro de 1886, com óbvia descendência; Ricardina Gonçalves, a 11 de outubro de 1888, com grande prole de porvindouros; Albina Gonçalves a 7 de fevereiro de 1891, também com geração; José Augusto Gonçalves aos nove dias do mês de maio de 1893, sem criação; e, por fim, Deolinda no último dia do mês de julho de 1898, pessoa débil falecida precocemente em 1944, sem filhos.

O meu avô escolheu para sua companheira de uma vida uma rapariga tímida, de origens afidalgadas, e que residia no Lugar do Crasto. Tratou-se de Maria Pereira de Castro, nascida em 22 de agosto de 1888, com a alcunha atribuída de "tia nova", a partir do seu enlace, ocorrido em 20 de novembro de 1916. A opção de lar conjugal recaiu nesta casa, tendo ficado incumbidos de zelar pelo acompanhamento dos pais de António até ao fim das suas vidas. Foram os penúltimos donos desta casa.

Maria descendia dos "Pereira de Castro" de Gondomil, conforme documentado no livro intitulado "Gerações Valencianas - Volume I", da autoria do Major Pereira de Castro, uma família com pergaminhos cujas origens longínquas os ligam pela via paterna de Manuel Joaquim Pereira de Castro de Gondomil (1782-1863) aos Morgados de Alderiz (Pereira de Castro Marinho... Sotto Mayor), às melgacenses Quinta da Gaya sita em S. Paio, Quinta de Pontizelas em Paderne, Quinta do Fecho em Roussas, aos Abreu de Lapela, aos vários "Castro" alcaides de Melgaço e a mais gente dita ilustre que, sobretudo na Idade Média e no período do Renascimento, mas também ainda um pouco durante a Idade Moderna, dominaram as instituições e o território do Alto Minho. Como não podia deixar de ser, a sua maioria tinha origem na Galiza. Tema para grande conversa, plena de grandes enredos, quiçá numa outra oportunidade.

A vida nem sempre terá sido risonha para o casal, apesar do património rural existente. Nunca cheguei a conhecer o meu avô António, dado o seu falecimento em 1960. Mas sei que foi lavrador-proprietário de profissão por inerência. Após uma estada relativamente breve nos Estados Unidos da América, também exerceu a atividade de regedor de São Cristovão de Gondomil em simultâneo com a de representante do Registo Civil de Valença nesta freguesia. O local físico dessa delegação foi, curiosamente, nesta casa.

O casal tinha tido quatro filhos, o meu já mencionado pai, Jaime Gonçalves de Castro nascido em 23 de setembro de 1918, segundo neófito do mesmo nome (o primogénito morreu recém-nascido), e duas meninas, a Laurinda de Castro Gonçalves, que alvorou a 14 de agosto de 1924, e a Deolinda de Jesus que pereceu aos 3 meses de vida (havia nascido em 2 de dezembro de 1928 e falecido a 21 de março de 1929).

Quanto a Laurinda, após casar com um seu patrício Avelino Esteves Alves, viveu um largo período na terra natal, muito dele nesta casa, juntamente com os filhos Manuel, Belchior, José Augusto, Fernando e Maria da Conceição, acabando todos por se juntar a Avelino que já residia na americana cidade de New Jersey há vários anos e aí assentarem definitivamente.

Em partilhas com Laurinda, Jaime optou por ficar com a moradia familiar.

O meu pai, fazendo jus a um objetivo imposto pelo seu Tio paterno José Augusto Gonçalves, estabelecido comercialmente em 1921, no ramo dos lanifícios, com notório sucesso, na cidade do Porto, de que convidaria a viver, apoiar nos estudos e no trabalho, o sobrinho que primeiramente terminasse o exame da 4ª classe, habilitou-se e conseguiu esse intento com distinção.

Assim a adolescência e juventude de Jaime foram passadas na cosmopolita cidade invicta num ambiente económico e social diametralmente oposto ao da terra que o viu nascer. Seguindo parcialmente as pisadas do seu tio, que também foi nos primórdios da atividade "viajante" de uma importante empresa comercial de Guimarães, iniciou-se meu pai como marçano, mas quase logo, pelas competências demonstradas, capacitou-se como sócio e assumiu cumulativamente a gerência da sociedade Gonçalves, Monteiro & Cª., Lda., dirigindo principalmente a área do escritório. O negócio fervilhava próspero em todo o território nacional e nas antigas províncias ultramarinas. Tinha celebrado matrimónio com a portuense Maria da Conceição Pereira da Costa e haviam sido pais da Maria José, do José Augusto, os meus irmãos maiores. Por último, anos mais tarde, nasci eu. Somos os três, por herança parental os atuais donatários desta residência.

A postura, o apoio, a ambição, o empenho e sentido de responsabilidade profissional demostrada por Jaime foram muitíssimo bem acolhidos pelo Tio Zé Augusto, que viu nele talvez o sucessor natural que, por infortúnio, não teve.

Sempre valorizei o facto do meu pai (Jaime Gonçalves de Castro) nunca ter renegado nem subalternizado as raízes. Tal como os seus predecessores habitantes da "Casa da Portela" e trilhando o exemplo solidário junto do clã familiar do tio que o acolheu, sempre atuou com generosidade e espírito de colaboração. A doação de um terreno para a construção de uma nova escola primária na freguesia e a oferta à igreja local de um conjunto de quadros representando a Via Sacra, são disso dois exemplos. Recordo ainda com ternura o prazer, quase a tocar o pueril, que ele sentia ao abrir a bagageira do seu "cinzento metalizado Opel Record 1900"e retirar, para distribuir pelos membros da família e amigos (onde se incluía o padre da freguesia), cortes de fazenda, bolo rei e bacalhau na época natalícia, e pão de ló e amêndoas no período da Páscoa. Foram anos a fio, até falecer, em dezembro de 1995.

P' Galega de Castro - março 2021


Margarida na Linha do Corgo

Entusiasmada, a esbelta menina de carinha doce e meigo olhar, vaporosamente trajada em minúsculas flores em amarelado degradê onde sobressaía o verde das folhinhas que pulverizavam o vestido, caminhava apressada e saltitante ao lado da mãe Vera, a caminho da estação do comboio da Linha do Corgo que as levaria à Régua, mas com o fim último de aportarem na Invicta, onde se acomodariam, como já era hábito, na residência familiar da tia materna Bella, lá para as bandas de Paranhos, nas proximidades do jardim da Arca d'Água.

Com a colaboração de Manuel Duarte Castro, o pai da jovem, que não as acompanhava dados os múltiplos afazeres que o retinham no burgo flaviense, a bagagem e a chapeleira eram rigorosamente acondicionadas na prateleira que encimava os desconfortáveis bancos corridos em estrados de madeira envernizados onde se iriam sentar. Abraços, beijos de despedida e saudações para os parentes portuenses antecipavam a acomodação de filha e mãe no interior do trem.

Guidinha adorava iniciar a viagem junto ao varandim em ferro existente na extremidade da carruagem, em simultâneo com o último aceno para o progenitor, comportamento que atemorizava Vera, que assim justificava o receio de que a cria tombasse sobre a linha.

- Anda para aqui, Margarida! Senta-te! Aproxima-se o revisor!

Alertava ainda, apontando, para ao gracioso chapéu de aba média em palhinha:

- Cuidado, está atenta, segura bem, não o deixes voar!

A garota, fina e precavida, já o tinha arremessado para trás das costas, mantendo-o bem preso com fita de seda esverdeada, numa vistosa laçada abaixo do queixo.

O trajeto a bordo do comboio com tração a vapor, mau grado ser paisagisticamente deslumbrante, pecava por moroso. Era um caminhar pachorrento, num sinuoso serpentear entre montes e vales, ao som do "u-uuu" do apito, com intermináveis paragens em todas as estações e apeadeiros. Era início da época estival, do inerente calor abrasador típico do Alto-Tâmega, pelo que as aguadeiras, a troca de cêntimos, forneciam água fresca, que transportavam em bilhas de barro vermelho. Também as padeiras aldeãs vendiam saborosas regueifas, fruto do caseiro plantio de trigo e subsequente cozedura. Estávamos em finais dos anos 40 do século XX e este pecúlio deveria ser, para as humildes mulheres das localidades, a única fonte monetária que conseguiam arrecadar, um meio de ajudar na sua parca subsistência.

Aviso prévio, por carta, permitia que, na paragem de Vilarinho de Paranheiras, a prima Aninhas as viesse saudar. Era um ritual nunca falhado. Mãe e filha, debruçadas sobre a janela, em amena tagarelice de circunstância, trocavam as últimas novidades sobre os familiares comuns.

Antes da chegada à gare da Régua, parte do farnel, minuciosamente preparado pela criada, já era inexistente. A emoção da viagem, o misto de aromas fluviais e campestres tinham efeito devastador no que a apetite dizia respeito. O cesto de verga chegava ao destino desprovido dos mantimentos iniciais, apenas ocupado com um sobrante exemplar do tal "pão de romaria" caseiro comprado no caminho.

À saída da estação de S. Bento, havia sempre um táxi disponível para as transportar para o número 595 da portuense rua de Vale Formoso.

Um forte e apertado abraço saudoso, era trocado entre as irmãs Vera Cruz e Bella da Glória, as manas flavienses "Mesquita Pereira".

- Que bonita e crescida estás, minha querida Guida! - dizia-lhe, sorridente, a tia.

E dirigindo-se a Vera, a dona de casa comentou:

- Uma perfeita boneca a tua filha, oh Mana!

Sacramentalmente, mãe e filha dirigiam-se aos aposentos sanitários para um almejado banho quente. A fuligem opaca, quase negra das cinzas do carvão tinham-nas tingido por completo!

Os restantes dias eram ocupados de forma agradavelmente diversa. Faziam passeios, deslocações em elétrico ao centro da cidade para compras em lojas de conveniência. Sob prévia marcação, iam a casa da modista D. Luciana ultimar novas indumentárias. Em manhãs pouco ventosas, Margarida acompanhava a prima Conceição e os filhos à praia junto ao Castelo do Queijo, onde esta tinha barraca armada na "Emília Barbosa".

Acompanhadas por Bella e as suas filhas Margarida e Bela, era usual a visita a casa dos vários irmãos do cunhado de Vera, José Filomeno Costa, todos moradores na zona de Paranhos. Episódio hilariante ocorreu, certa vez, em casa dos tios António e Modesta, durante uma refinada merenda. A criada entrava e saía da sala onde todos lanchavam com uma exagerada frequência, com semblante transparecendo que aguardava instruções da tia anfitriã. Ora como esta não tinha efetuado qualquer diligência nesse sentido, acenava-lhe com a mão para que se retirasse. Segundos depois, voltava a empregada a aproximar-se. Momento cénico repetido que já estava a incomodar e a aborrecer a D. Modesta. Por fim, concluiu-se que alguém estaria a tocar na campainha existente no soalho, por baixo da mesa. Tinha sido a jovem Margarida que, inadvertidamente, tocava com o seu pé sobre o botão da sineta. Gargalhada geral!

Galega de Castro - março 2021


Os eleitos

Tudo indicava que iria ter uma vivência comum, votada ao medianismo, dada a sufocante bastardia que o atormentava. Era uma revolta escondida, dominada por complexos envergonhados, quantas vezes inseguros, que contrastavam com uma precoce postura de falsa firmeza e não raras vezes obstinação. Tudo menos párvulo, sempre ia comentando a família materna. Mimado por esta, o menino de oiro, formoso, de encantadores olhos cor de mar, irrequieto, curioso e emotivo, medrou numa atmosfera típica da fidalguia rural. Renegou o usual fascínio pela arte da cavalaria e a atividade venatória por contraponto às reais aptidões evidenciadas para tudo que envolvia o conhecimento, os valores, a razão, o homem, a existência, o divino. Sem esforço, com notável argúcia, foi dominando as ciências e sobretudo as letras.

Prematuramente demonstrou ser um miúdo discreto, afável, sincero, vincadamente seletivo no que concerne à lealdade e ao companheirismo, nada ingénuo, angariador de sólidas amizades com a mocidade conterrânea com a mesma similitude de alma. Exemplo disso eram as passeatas, correrias, jogos recreativos como a divertida cabra-cega, um infindável rol de diversas brincadeiras que efetuava amiúde ao longo da verdejante margem do Rio Minho, acompanhado do filho do moleiro de Alvaredo e do neto do meirinho de Melgaço.

O fervor católico dominante no digníssimo e ancestral "clã" dos galegos Marinhos influenciou e cimentou de fé a mente do mancebo Vasco.

Xoana, o rapaz ten unha mente brillante e será outro digno representante na abadía de Santiago de Compostela. Aconsello a mellora dos estudos teolóxicos pola súa notabilidade no sacerdocio. Tema crucial do que xa falamos e que o teu fillo tomou consello - opinou um parente, membro do bispado de Orense, em tom persuasivo, junto da mãe de Vasco, sempre que esta se deslocava à casa-berço da família, na Galiza.

A atraente donzela Joana Marinho tinha fixado residência na margem esquerda do Miño, na "domus fortis" do seu antepassado João Forjaz Marinho, bem no âmago de S. Martinho de Alvaredo, logo que ficou prenha deste seu primeiro filho, fruto do seu arrebatador envolvimento sentimental com o nobre cavaleiro Álvaro, um belo homem da influente e aristocrática família dos Bacelar.

Por razões publicamente desconhecidas nunca este par assumiu oficialmente a relação. Mantiveram-na oficiosa, tendo ainda gerado mais duas crianças, batizadas de André e Aldonça. Alvitra-se que Joana tenha falecido prematuramente, atenta a circunstância de o dito Álvaro Vaz de Bacelar ter, anos mais tarde, realizado esponsais com uma tal Maria Soares Pereira, natural de Cambezes, procriadores de uma generosa prole de descendentes.

As previsões do almejado sucesso de Vasco foram confirmadas, enaltecidas e aplaudidas pela cúpula cardinalícia de Compostela. Após três anos de profícuos estudos no seminário, licenciou-se em Teologia Cristã, com brilhantismo. Tornou-se apto para executar as funções de ministro do evangelho. Curiosamente não era a vocação para as atividades clericais em sede de paróquias que o atraíam. Almejava atividade espiritual mais profunda, algo com elevação e mais cerebral! A fortuita presença de um alto signatário do Vaticano em Compostela, quiçá sorte de principiante, trouxe-lhe o convite irrecusável, atenta a vaga existente para secretário de D. Giovanni di Lorenzo de Médici (João de Lourenço de Médicis), um proeminente cardeal florentino, detentor de relevantes dotes de sapiência, visionário na cultura e na educação, pródigo na caridade, com laços sanguíneos à dominante e rica dinastia política dos Médicis, acabado de ser nomeado para dirigir a Basílica de Santa Maria de Domnica, em Roma.

A junção de duas mentes geradoras de ideias reformadoras e inovadoras, elevou-os e distinguiu-os, deu-lhes ainda mais notoriedade intelectual. Tornaram-se companheiros espirituais e, sobretudo, confidentes. Dizia-se o quanto eram eloquentes as tertúlias de cariz filosófico que ambos adoravam organizar. Em 1513, por unanimidade, o Conclave reunido na Capela Sistina elegeu Giovanni como Papa, assumindo o nome de Leão X. Vasco Marinho, manteve-se seu secretário, assumindo cumulativamente a função de seu confessor. Passou ainda a integrar a Cúria, como Protonotário Apostólico.

Desde que se conheceram que a comunhão do quotidiano ultrapassou os limites do religioso e Vasco beneficiou do importante, impactante e luxuoso, frequentemente boémio, ambiente em que se inseria a Família Médicis, desde Florença, passando pela Toscana e culminando na óbvia Roma.

Experienciou a contemplação da arte que o mecenato dos Médicis apoiava em todas as suas vertentes. Desenvolveu um outro olhar. Passou a apreciar e a valorizar a estética nas suas múltiplas manifestações.

Amigos, conhecidos, interesseiros, bajuladores, senhoras da sociedade, cortesãs, artistas, pensadores, homens da ciência, mercadores, magistrados, senadores, nobres cavaleiros, tudo constituía o círculo social destes poderosos florentinos. Inicialmente, Vasco encarnou o seu papel de espectador daquele ambiente inebriante, palaciano, erudito, glamoroso, pictórico, parco em rotinas e deveras cativante. Evitava e repudiava o contágio profano, ciente de que isso o faria manter-se firme na sua ortodoxia comportamental. Escutava com deleite as palestras dos esclarecidos, meditava na essência desses conteúdos, focava-se na análise daquela sociedade tão plural, visionária, aparentando ser menos preconceituosa do que a sua, mas também ambiciosa, consumista, frequentemente fútil. Instigado pelo jovem Cardeal Giovanni (João de Médicis) a expor as suas teorias e doutrinas, a exibir os seus dotes de oratória, introduziu-se nos diálogos, pareceres, meras opiniões, por vezes no contraditório.

Uma inquietação indefinida, deveras perturbadora, jamais vivida, vinha sendo sentida há já alguns dias, sempre que assistia ao serão ao concerto de Cravo no romano palácio Frangipani. Enquanto os ouvidos escutavam o som do teclado daquele inovador instrumento musical, o seu olhar pendia para a figura feminina, de negro e aveludado olhar, em consonância com a coloração do cabelo parcialmente recolhido numa laçada, permitindo que o restante, em cachos, lhe emoldurar-se o rosto sedoso, onde se destacavam lábios rosados e bem delineados. Detentora de um sorriso doce, constante e contagiante, a elegante e distinta senhorinha, corada e desassossegada, mirava-o de soslaio, escondida atrás do leque. A desejada pausa musical para ingestão de vinho licoroso facilitou a aproximação e a abordagem, suportada pelo argumento de que a exímia tocadora era parente da moça.

- Permita-me que me apresente, Monsenhor! Bernardina Anício. A cravista é minha prima. Toca maravilhosamente, não lhe parece?

- Sim, perfeitamente de acordo. Direi mesmo, brilhante! - respondeu Vasco Marinho, algo ofegante.

- Diz-se que Vossa Eminência é de terra distante, lá para as bandas do Reino da Galiza...

A provocação espevitou-o e olhando-a intensamente, explicou:

- Não está longe da verdade, caríssima menina Bernardina, é algo repartido! Isto porque os meus progenitores são oriundos de ambos os lados! Embora talvez me possa considerar mais do outro lado do rio, refiro-me a Portugal, onde ocorreu o meu nascimento!

- Gosta de Itália e sobretudo, do Vaticano? - perguntou carinhosamente Bernardina.

- Sim, tem sido uma experiência eclesiástica profícua e inolvidável!

E acrescentou, galanteador:

- Mais agora, que tive a honra de a conhecer! Tão preciosa, menina Bernardina!

Vasco ruborizou de imediato, consciente das impulsivas palavras que acabava de pronunciar. Recuou um pouco, persentindo verbalização inusitada, abusiva e inapropriada para a sua condição de clérigo.

Os olhos da italiana irradiaram contentamento, enquanto a elegante corporalidade se mantinha estática, disfarçadamente trémula.

Públicos encontros pincelados de galanteios recíprocos, risadas, confidências, constatação da partilha de interesses comuns, nomeadamente a literatura e a pintura, filosofia, mas também gastronomia, foram ocorrendo e cimentando a improvável relação.

Os corações palpitavam na ausência e na presença.

Ansiavam encontros. Abraçados, em perfeita simbiose, deleitavam-se em grandes passeios de barco ao longo do rio Tibre.

Vasco pedia que a serventia, diariamente, providenciasse as melhores flores frescas para oferecer à amada. Ela retribuía com os saborosos biscoitos de erva-doce e canela.

Emocionava-se ao ver aquela figura de nobre e ilustre porte, ser pensante, caminhar radiante ao seu encontro. Sim, ele que era originário de um meio fidalgo, mas antiquado e arredado da civilização.

Vasco, talvez pela postura espiritual que prosseguiu, nunca se tinha consciencializado de que era um sujeito atraente e, acima de tudo, cativante ao sexo oposto. E a vantagem de o ser na rara dupla componente compleição versus personalidade.

Cada um era a metade que faltava ao outro.

Amavam-se perdidamente.

- E agora? Estou em pecado. Fiz votos de celibato. Bernardina não será nunca minha cortesã. É uma menina honrada! Não admitirei tal papel à minha alma gémea. Repugnante tal assunção pela minha amada dama, uma senhora da conceituada e antiquíssima família dos Anícios, já existente antes do nascimento de Cristo! Apelidavam-nos de os "ínclitos e esclarecidos"! E que não o fosse, até podia ser uma escrava, desde que eu a amasse... O que haverei de fazer, Meu Deus?! - questionava-se em lamento, de coração partido.

Aconselhou-se com o João de Médicis, que frisou a irrevogabilidade dos votos sacerdotais que impediam a união sacramental e a drástica perda que seria para a Igreja Católica Romana se ele, tão sapiente, a abandonasse. Deu-lhe a entender que tudo indicava que iria ser eleito Papa a breve trecho e que poderia contar com a sua total conivência e proteção. Sugeriu ainda que falasse com D. Bernardina Anício, lhe expusesse a sua paixão e dedicação, as limitações do catolicismo a uma formalização do amor, e a auscultasse relativamente à manutenção relação amorosa em moldes ocultos. Mais adiantou que era prática corrente...

Apesar dos receios, certo é que a paixão clamou mais alto e ela deu o consentimento.

A relação terna e duradoira foi dando frutos com o nascimento de D. Pedro, de D. Margarida e de D. Joana, todos de apelido Marinho.

Os rebentos viveram em casa de sua Mãe, em Roma, beneficiando de todo o apoio e carinho de seu pai.

Tal era proeminente a figura de Vasco Marinho em Roma que o lusitano Rei D. Manuel I, em 1511, legitimou os 3 descendentes.

Já adolescentes foram confrontados com o convite para que pai regressasse à terra natal, repleto de cargos eclesiásticos e mordomias, e com a perentória recusa da Mãe em o acompanhar. A espectável concordância em seguir a decisão maternal caiu por terra e todos optaram por viajar para o desconhecido e longínquo Portugal.

Desconhecem-se as razões da recusa da fidelíssima Bernardina Anício.

Pai e filhos instalaram-se principescamente na região minhota de Monção, edificaram igrejas, criaram morgadios, legaram obra, aí fizeram as suas vidas e deixaram descendência, ainda hoje existente, embora muita dela o desconheça!

Galega de Castro - fevereiro 2021



A LARANJEIRA

("CASA DA LARANJEIRA")

Ao longo de gerações todos os que as saborearam sempre relevaram a sua doçura.

Os mais letrados unanimemente as identificavam e apelidavam de "portuguesas"!

- Foram os mercadores lusos com negócios na Índia que introduziram as laranjas doces na Europa a partir de mil e seiscentos. A aceitação foi tamanha que extensos pomares surgiram ao longo do território marginal do Mar Mediterrâneo, culminando na região dos Balcãs - explicava o Abade João da Silva Cruz, enquanto suavemente enfiava o rosto por entre a folhagem da laranjeira, facultando às narinas uma absorção inebriante do aroma cítrico.

- No entanto a laranja ácida criteriosamente utilizada para fins medicinais, originária da região asiática, perde-se na longevidade dos tempos. No caso dos cidadãos europeus, supõem-se que tenham sido os Romanos, no âmbito das rotas comerciais estabelecidas, os primeiros a contactar com este vegetal de tronco lenhoso pulverizado de vistosos e aromáticos frutos. Com o surgimento do califado islâmico, foi possível observar a sua vertente ornamental e o quanto embelezavam os pátios das casas árabes abastadas - acrescentava em sapiente retórica.

- É a laranja apontada como tendo origem híbrida, fruto do cruzamento de dois citrinos, refiro-me ao pomelo e à tangerina, duas espécies nativas selvagens da região asiática - detalhava o circunspecto D. Frei Manuel Joaquim de Santa Rita, envergando vestes negras, enquanto repousava no banco de pedra, que sempre existiu no muro da propriedade sobranceiro à estada principal, tendo a árvore centrada no seu campo de visão.

- Não sentes o aroma, mano Manel Joaquim? Estou a ultimar a feitura da compota, pois a colheita deste ano rendou, tendo sobejado algumas que retirei e aproveitarei para confecionar o delicioso e tradicional licor que tanta inveja acomete aos teus irmãos do Real Mosteiro de Pombeiro - comentou gracejando Joaquina Rita do Espírito Santo, enquanto, em passo ligeiro, saía da cozinha a caminho do coberto da desfolhada.

- Contava comer algumas hoje à merenda, mas terei de esperar que a restantes - poucas as que consigo vislumbrar - amadureçam. Lembra-te de me guardares algumas para a minha próxima vinda a tua casa - comentou em lamento Manuel Joaquim da Silva Cruz, o irmão beneditino "Santa Rita".

- Faço minhas as tuas palavras mano Manuel Joaquim. Fruta deste sabor não existe em mais nenhum quinteiro das terras da Maia! Uma delícia... - rematou o Padre João, sincronizando com um evidente lamber de beiços.

- Estejam descansados, caros cunhados, que eu próprio zelarei para que sejam acomodadas em lugar seguro, longe dos predadores famintos da nossa família - interveio, risonho e tranquilizador, o jovem Manuel Francisco da Silva Costa, acabado de sair da adega.

Quanto à árvore, desconhece-se quem a plantou e quando, sabe-se que no segundo quartel do século XVIII já era frondosa e os seus frutos faziam as delícias dos mamedenses "Silva Costa" seus donatários. Presenciou e vivenciou episódios felizes, infortúnios, sucessos e algumas desavenças ao longo do tempo.

Foi, sobretudo, testemunha da união entre a família Silva Costa e a Silva Cruz, esta originária do Lugar de Moalde, sacramentalmente abençoada no primeiro dia do mês de fevereiro de 1818, pelo casamento de Manuel Francisco com a menina Joaquina Rita, cuja numerosa descendência se perpetua na atualidade em sintonia com a resistente e firme laranjeira.

A Galega de Castro - dezembro 2020

ALEXANDRE e o Violino

(texto ficcionado a partir de uma fotografia, apenas havendo autenticidade no que toca à aptidão inata para manusear o violino e aos óbvios dados identitários)

Nunca sentiu atração pela jogatina do pião, detestava a cabra-cega, deliciava-se a andar no baloiço instalado no vizinho jardim público, colecionava "ioiôs" que manuseava com mestria e quando despontou para a puberdade iniciou-se a jogar "solitário" muito por contágio dos tios maternos que tinham por hábito diário, após a pausa do almoço e antes da retoma das atividades, jogar uma ou duas rodadas daquilo que apelidavam de "fazer paciência".

Nasceu franzino, pálido e choramingão numa invernosa madrugada do dia 13 de janeiro de 1893. Diziam ter um sono sobressaltado e com tremores. Inquietou os progenitores. Tratando-se do primogénito era notória a inexperiência parental. Valeu-lhe o nutriente e abundante leite materno, e sobretudo, o traquejo da avó Joaquina em lidar com recém-nascidos para que celeremente medrasse. Volvidos pouco mais de 3 meses já se tinha convertido numa saudável e deveras rosada criança, apesar da compleição perdurar esguia.

Os sedosos e aloirados cabelos, levemente esguedelhados, cujos caracóis lhe envolviam a brancura do rosto, onde brilhava e sobressaía um esverdeado e meigo olhar, sempre encantaram familiares e, já na mocidade, as raparigas flavienses.

Regrado e pouco dado a apetites, raramente "pecava" pela gula, excetuando as vezes em que os guisados da criada da Mãe Margarida Mesquita constituíam o prato principal dos almoços na casa do lar da Rua Cândido Sotto Mayor, na Madalena.

Com naturalidade, à medida que caminhava para a idade adulta, cultivava a elegância e o aprumo que a altura e o porte enalteciam com inata discrição, a par de uma postura distante amiudada e precipitadamente interpretada como snobismo.

Comentava-se, sempre que marcava presença em ambientes mundanos, o quão sedutor era. A maioria, realçava-lhe o sorriso atrativo, numa combinação de sensualidade e candura.

Por vezes exasperava quem com ele privava intimamente no quotidiano, atento o seu perfil detalhista no que tocava ao traje e à organização da parafernália dos seus pertences.

Introspetivo e romântico, reservava-se ao direito de se isolar, de se embrenhar em pensamentos e narrativas que lhe preenchiam e acalentavam, embora ocasionalmente também perturbavam, a alma. Era um sonhador!

Mas o que realmente Alexandre adorava mesmo era tocar a sua rabeca. Muito jovem, em simultâneo com o início da escolaridade, já era exímio a passar o arco pelas cordas do presente mais desejado, aquele instrumento musical adquirido na loja do Arrabalde, oferta natalícia do homónimo pai.

Obediente e dedicado aos estudos, frequentou o Liceu Nacional de Chaves, sempre com aproveitamento nas ciências, mas com manifesto relevo nas letras e na música. Saltitava de contente, segurando possessivamente o estojo do violino, a caminho da Rua do Poço, nos dias em que havia lições. No seu caso concreto, tratava-se de mero aperfeiçoamento, pois o domínio quase perfeito do instrumento era por demais evidente.

Para lamento parental, aptidões comerciais jamais foram detetadas. As perspetivas do próspero comerciante Alexandre Luís Pereira quanto à continuidade do negócio por parte do filho quedaram ínfimas. Observá-lo feliz e realizado sempre ocorria quando escutavam os seus brilhantes concertos, que diariamente aconteciam na sala de visitas. Até a vizinhança e os transeuntes ficavam encantados com o som ecoado.

Em 1 de maio de 1918 ocorre prematuramente o falecimento de Alexandre-pai, a caminho de celebrar o quinquagésimo quarto aniversário, talvez motivado por surtos de varíola, gripe infeciosa ou mais provavelmente a terrível "pneumónica", epidemias que arrasaram o mundo, o país e aterrorizam Chaves em particular. Propagou-se em tal escala devastadora, somando inúmeros mortos.

Desconhece-se, até ao momento, se Alexandre-filho, que também se finou precocemente ainda seria vivo aquando da morte do pai, se a sua partida já teria ocorrido anteriormente ou se foi num momento posterior próximo. Consta-se que teria sido assolado, no pleno da sua juventude, por doença mortífera, quiçá de origem bronco-pulmonar ou talvez leucemia. Seguramente é que se finou por trágico padecimento. Comenta-se ainda que, já moribundo, solicitava encarecidamente que a sua urna tivesse a configuração de um violino. Ter-lhe-á sido feita a última vontade?

A Galega de Castro - dezembro 2020

PERIPÉCIA EM ÁGUAS DOCES

(breve trecho)

(...)

Que se tratava de passeio de barco era um pressuposto universal.

Misto de vontade em arriscar e receio era o sentimento preponderante daqueles cuja atividade que se adivinhava implicava água! E seria doce ou salgada?

Alguns, poucos, já tinham experimentado flutuar e apenas António Gonçalves Pedreira beneficiava da vantagem de já ter efetuado viagem em paquete, a partir de Leixões até New York e inerente retorno. Os flavienses relembraram os passeios ao longo do Rio Tâmega, nas pequenas embarcações que, em época de veraneio e termal, faziam não só as delícias dos locais como as dos termalistas. Os mirandeses recordaram um passeio para observação da fauna e flora do Douro selvagem efetuado com início no Lugar da Congida, local ribeirinho a pouco distância de Freixo de Espada à Cinta e a culminar na povoação de La Barca, na vizinha Espanha e respetivo regresso. Alexandre Maia beneficiava cumulativamente da vantagem da frequente fruição de águas salgadas da baía de Sesimbra e da inclusive feitura de uma embarcação de recreio com 5 metros de comprimento fora-a-fora - o seu "Xaíca". Por último e apesar da sua residência profissional estar aquartelada junto à foz do Rio Leça, paredes meias com o Atlântico e de encabeçar uma força militar de defesa do território de indesejados e piratas e outros que tais, o Major António Pinto e Leão da Silva nunca tinha abraçado a experiência marítima.

Escrupulosamente preparada a agenda consistia numa subida do Rio Douro em barco turístico, com almoço a bordo, paragem no emblemático Pinhão, visita a quinta vinhateira em Covas do Douro, retorno à Régua em comboio histórico, local onde jantariam e pernoitariam bem próximo, na Quinta do Valle, no âmago de Vilarinho de Freires. No dia seguinte, fariam visita-guiada ao Museu do Douro da parte da manhã e assumiriam a nau com jusante como destino.

Àquela hora da matina a movimentação de embarcações no cais da Ribeira era estonteante! Em redor do luxuoso batel da Cª Douro, Lda. observava-se o frenesim destes veículos aquáticos, desde os barco-hotel até aos rabelos, que também ultimavam as respetivas excursões.

As onduladas águas do Douro esboçavam sorrisos de contentamento!

Padecendo das características das catatuas o par de eclesiásticos ia conversando em modo barulhento, consequência da sã e longínqua relação de convivência que os unia. A animada cavaqueira foi de tal modo absorvente que os dois não se aperceberam que a rampa de acesso se movimentou, em sintonia com a ondulação, no exato momento em que a iam transpor, desequilibrando o Abade de Paranhos que, ao som de um formidável "splash", experimentou assim um inesperado e matinal mergulho!

Predominaram os gritos de aflição, particularmente por parte do Padre Joaquim Francisco da Silva Costa, os apelos à calma e o arremessar de circulares bóias de salvação, enquanto se assistia ao bracejar de Sua Eminência numa tentativa de se aproximar de um bote ancorado nas imediações. Mas foi um jovem e musculado nadador-salvador, fazendo valia dos seus dotes físicos, em triunfo, que abraçou o Padre António Domingues Jacintho Maia e, nadando em direção ao pequeno barquito, o livrou de tal infortúnio!

A tripulação apressou-se a secar e agasalhar o Senhor Prior evitando a hipotermia, enquanto era persuadido pelo Primeiro Imediato para envergar a farda suplente que sempre existia empacotada no porão do navio para ser usada numa qualquer eventualidade.

Um aromático e escaldante chá de erva-cidreira servido agora nos aposentos do Arrais para onde foi conduzido, atuou duplamente refreando o nervosismo e repondo a temperatura corporal.

Pertinente e oportuna foi também a presença do Dr. António Macedo Faria - o omnipresente Doutor "Teca" - e a sua botica ambulante. Com a agilidade que o caracterizava verificou a tensão arterial e medicou-o com um sedativo.

Peripécia ultrapassada, amarração solta, iniciou-se, em marcha lenta, o percurso rio acima.

(...)

A Galega de Castro - 2018

LUISA CLARA DE PORTUGAL

Lisboa, Encarnação 21 de agosto de 1702 - 31 de agosto de 1779. 

Foi uma das amante de D. João V. Era conhecida como Flor da Murta

Desafio em modo de guião - peça teatral - Monólogo

(elaborado para uma jovem e familiar atriz) 

(Extenuada de satisfação, caminhando devagar, simulando pés doridos, Luísa Clara chega à ala privada da sua residência no Palácio da Terrugem, em Oeiras, acompanhada pelo marido)

- Meu querido Marido, meu doce Jorge Francisco de Menezes, lamento não vos poder acompanhar no leito esta noite, mas encontro-me deveras exausta! Foi uma noitada de arromba! Divertida e muito bem representada a peça "Guerras de Alecrim e Manjerona"! O Real Teatro está um luxo! E o baile no Palácio Real da Ribeira, não achou deslumbrante? É um orgulho ser dama da corte da Rainha D. Maria Ana da Áustria, senhora de grande visão cultural e refinadíssimo bom gosto. Quanto a mim, julgo ter exagerado nos "minuetos" e nos deliciosos licores! Por hoje, recolher-me-ei em solitário. Amanhã já estarei recomposta. Boa noite. (encenou, despedindo-se assim Luísa Clara, de olhos semicerrados, esboçando um ligeiro sorriso, fazendo uma carícia ao de leve no rosto de Jorge e depositando-lhe um fugaz beijo, enquanto se escapulia com ligeireza para os seus aposentos, evitando que ele retorquisse)

(Bateu a porta, rodopiou duas vezes de contentamento, arriou-se na sua poltrona, liberta, olhos brilhantes e extasiados virados para o teto, colocou as mãos junto do coração, ruborizou, suspirou de alívio e comoção)

- Finalmente a sós com o meu coração! Como estou feliz e apaixonada! Meu Deus, "Ele" também me ama! Os seus penetrantes olhos não mentem! Inacreditável, mas sou a sua favorita!

(pausa e continua em timbre vivo e excitado)

- E a maneira como "Vós" vínheis-me mirando e os atenciosos gestos há muito que evidenciavam interesse, Senhor. Comprovou-se esta noite debaixo do caramanchão do jardim do palácio, a pretexto da tomada de ar fresco, após ter sido escolhida por "Vós" para a dançar na abertura do baile. Ai, o demorado e voraz beijo que depositaste na minha mão (olha para a mão)! Ainda agora sinto a fortaleza dos vossos lábios...

(Ergueu-se)

- Amamo-nos!

- E como ele é belo, galanteador, sensível, erudito...

- E forte, decidido...

- E como é possuidor de um engenhoso dom de compreender no feminino, incomum nos homens da corte!

- Jamais havia eu experienciado tão forte desejo e afeto! Um entendimento umbilical intangível rodeia-nos, oh minha alma gémea, Meu Rei-Sol!

- Estou rendida a ti!

(Repentinamente, deu uns passos saltitantes de felicidade aproximando-se do espelho. Mirou-se de alto abaixo, com orgulho e admiração)

(Em diálogo com a sua figura no espelho, sorriu)

- Agradeço a Deus ter sido favorecida por tamanha beleza e formosura! Sou bela, sim!

(ligeira pausa)

- Dotes esses que se aliam à refinada e esmerada educação ministrada na casa de meus pais, da fidalguia dos Condes de Castelo Melhor. Sou nobre, séria e exemplar mãe! (rematou em tom justificativo)

- Mas, e agora?! Meu amado Sereníssimo João Francisco António José Bento Bernardo, és casado! A "Aliança com a Áustria" consumada pelo vosso celestial casamento é fulcral para a manutenção da internacionalização e desenvolvimento de Portugal! Não deve ser beliscada! Percebo também que, passados estes anos, nada sintas pela demasiado devota, embora sapiente Maria Ana. Tal como eu que também nutro uma enorme estima por Jorge, mas a chama impetuosa da paixão há muito que se apagou. Ambos fomos bafejados com preciosa família merecedora do nosso exemplo de integridade.

(pausa pensativa e tristonha)

- Convicta da perpetuação do nosso amor, se os almejados encontros prevalecerem, serei sempre a cortesã régia...

(mudança rápida para semblante mais vivo, tirando do bolso do vestido um lenço branco rendado)

- Ai que tonta, tinha-me esquecido da singela oferta! O seu sedoso e perfumado lenço!

(1. cheira com intensidade e durante algum tempo, cerrando os olhos)

(2. abre o lenço e fica surpreendida de emoção)

- Que preciosidade, um pequeno pergaminho a envolver um lindíssimo anel de ouro com diamantes e esmeraldas! Quão precioso é este Teu gesto!

(3. lágrimas de alegria tendem a brotar dos seus olhos, comove-se de emoção, com o coração a palpitar mira e afaga o anel múltiplas vezes)

(4. desenrola de seguida o pergaminho e, em êxtase, lê)

Oh! Flor da Murta

Raminho de freixo,

Deixar d' amar-te

É que t' eu não deixo.

Morrer sim

Mas deixar-te não.

Oh! Flor da Murta

Amor do meu coração.

Oh! Flor da Murta

Do meu coração,

Deixar d' amar-te

Ai não deixo, não.

- Como me sinto honrada! Maravilhosa surpresa! Agradecida meu "Magnânimo Amor"!!

Agosto 2020 - A Galega de Castro 


METRO, TESOURA, MALA E CADEIRA

Em parceria, retalhávamos e mediamos peças "a grosso" de pano, fundamentalmente lã, provenientes de fábricas italianas, inglesas e portuguesas, estas enraizadas em zonas de profunda atividade agro-pastoril, encabeçadas pela secular cidade dos lanifícios - a Covilhã - secundarizada pelo Fundão, Seia, Castelo Branco, Portalegre e a região do Vale do Ave.

Simbolizámos a época áurea dos viajantes e suas malas contendo mostruário das últimas novidades em "tweed", "escocês", "princípe de gales", "pied de poule", "flanela", "feltro", "angorá". Eram cavaleiros imbuídos de espírito templário a calcorrear a Nação com afinco, almejando retorno ao armazém da Rua de Passos Manuel, o "Porto de abrigo" corolário de negócio materializado.

No início das estações, em febril frenesim, na demanda dos últimos exclusivos, convivemos com modistas de alta-costura e refinados alfaiates que percorriam o soalho de tábua trincada mirando os rolos das fazendas amontoadas na correnteza de prateleiras ou em trânsito sobre as bancadas!

Fervilhava negócio abarcando toda a portugalidade, inclusive as províncias ultramarinas. As encomendas eram primordialmente veiculadas em meras anotações registadas pelos vendedores em livros de bolso, também por carta remetida via correio, mais tardiamente sobretudo pelo eficiente telefone de cavilhas.

Sobre as escrivaninhas, gigantescos livros da escrituração, reflexo do negócio, meticulosamente registados pelas hábeis mãos dos administrativos que, proibidos de trabalhar em mangas de camisa e com o intuito de não danificar a indumentária, envergavam diariamente mangas postiças, designadas por mangas de alpaca.

No recanto e recato do escritório, de assento de palhinha dotada de madeira no encosto e nos braços arredondados sustentou a robusta cadeira, em intimista convivência, os vários gerentes da firma designadamente os fundadores Serafim Soares Monteiro e o valenciano José Augusto Gonçalves, cuja sólida amizade, iniciada em 1910 enquanto colaboradores destacados e diligentes em competência mercantil de sociedade do mesmo ramo cujas instalações se localizavam, curiosamente, em edifício oposto do mesmo arruamento, medrou e consolidou na fundação, em 1921, da firma Gonçalves, Monteiro & Cª., Lda., sita à Rua Passos Manuel, números 66 a 68. De quando em vez, esta peça de mobiliário acolhia o amigo, o mentor, o auxiliar técnico e financeiro que foi João Rodrigues Loureiro, Industrial e Comerciante, Grande Oficial da Classe de Mérito Industrial, conterrâneo de José Augusto e pessoa dotada de singulares qualidades de trabalho, assertividade e inteligência, prerrogativas que muito o distinguiram.

Desde 1921, oriunda da praça da Invicta, num cenário mercantil, dia-a-dia, testemunhámos aquela que foi uma atividade crucial no tecido desta urbe nortenha.

A Galega de Castro - 2020

TIC-TAC

Pertenceu a um genuíno Mirandês, que despontou para a esta vida na segunda metade do século XIX na Freguesia de Santa Maria Maior, bem no coração de Miranda do Douro, este medidor portátil do tempo, tal qual "Ovo de Nuremberg", que jurou fidelidade a seu Amo.

Por detrás das janelas da Rua da Alfandega, entre as rendadas cortinas e após o almoço, as donzelas da cidade espreitavam o elegante e sedutor Delegado da Fazenda Pública que, após saboroso repasto, diariamente e a passo apressado, atalhava caminho até ao Largo do Cruzeiro. No número 38 habitava uma, de perfil mais atrevido, que lá ia dizendo em perfeito mirandês: "Buonas tardes Senhor Moço! Mie bó te Cumbida à buber una copa de bino fino e manducar bolha doce, deimingo pela tardinha...". Ruborizado acenava sinalizando apenas agradecimento. Na verdade, aquela que lhe fazia palpitar o coração distava uma légua a galope, lá para os lados de Malhadas.

Figura de médio porte, sempre bem ataviado, de casaca, colete e calças, com albinas camisas e sedosas gravatas, lustrosas botas pontiagudas e a indispensável cartola sobre o ondulado cabelo castanho, rosto ovalado onde sobressaiam uns olhos esverdeados e um sorriso contagiante, nunca enveredou pela moda das barbas, mas um farto bigode fazia jus àquilo porque era conhecido: um dos solteiros de ouro das Terras de Miranda.

De ouro era também o "Longines" de fabrico suíço, com as suas iniciais gravadas - Rodolpho Adriano de Faria - peça crucial na sua indumentária, que nunca abandonou, mesmo nos gélidos meses do rigoroso inverno em que trocava a casaca pela capa de burel.

Nunca avariou... Ora escutem o tic-tac!

A Galega de Castro - 2016


JANELA SURPREENDENTE

O dia frio, húmido e cinzento, ambiente natural para a época do ano, o inverno, não propiciava passeios a pé pela zona histórica da cidade, mas era mais um sábado e tínhamos por hábito percorrer calmamente o velho casco burguês à procura da cidade surpreendente!

Eis senão quando deparamos, no seio de uma rebocada, suja, vulgar e desajeitada parede uma janela cujo vidro, serpenteado de pequeníssimas gotículas de humidade, mais parecia um espelho ao relento.

Olhámos atentamente e balbuciámos, em uníssono, que o reflexo do casario oitocentista projectado naquele vidro, que rematava aquela janela, mais parecia um quadro a aguarela!

O destino converteu assim a insólita e singela janela, despida dos habituais adereços, numa digna e bela obra de arte.

A Galega de Castro - 2015

AVÓ BELLA


Em dias prazenteiros era observá-la, às tardes, antes da merenda, a deambular delicadamente pelo "Jardim do Cândido", aquele brasileiro de torna viagem pleno de intuição para os câmbios e papéis de crédito, mas que tornou defunta a antiga muralha com o intuito de presentear a terra natal com um belíssimo e aprazível recinto arborizado, sobranceiro às serenas e flávias águas do Rio Tâmega. 

Escutava a banda filarmónica que abarrotava o rendilhado coreto. E, tudo semelhante a uma praxe, sentava-se e dedilhava sobre a coxa direita, as marchas e as polcas, como se do seu piano se tratasse. 

Percorria o Bairro da Madalena, acenando para a progenitora que àquela hora mirava os transeuntes da janela da sala, galgava, a eito, o magnífico legado da romanização do obreiro Optimus Princeps Imperador Trajano - tropeçando de quando em vez nas reminiscências do antigo balneário romano -, cruzava a azáfama do Arrabalde, e culminava a sua jornada na ouriversaria da Madrinha, bem no âmago da Rua Direita. 

Intervalando com a clientela, que nem duas tontas à galhofa, iam lendo os versos da formosa e delicada Bella, salpicados de humor e rima, até que o aroma a chá e torradas invadia o aposento, indicando pausa para lanche. 

Pautou sempre o quotidiano com brandura e distinção, pilares espelhados nas sedosas feições, evocando quiçá Léa e Jacó...

A Galega de Castro - 2016

BENGALA

- Qual é a sua graça?

- Tem dias ... depende do propósito, da ocasião ...coexiste variedade de desempenhos...

- Frequentemente bordão, esteio, cajado, vara, peregrina, alicerce, amparo, muleta, visão...

- Nas temporadas glamorosas, alcunha de mero adorno ou imprescindível objeto da tendência.

A Galega de Castro - 2016

LUA

Dissimuladamente foi-se incorporando no clã, merecendo atualmente as honras de membro honorário.

Iniciava-se o equinócio primaveril quando nos cruzámos nas cercanias do berço da Deu-la-Deu, lá para as bandas de São Salvador de Cambezes, povoado ancestral com odor a sangue celta.

Alegre e saltitante, a jovem pigarça disfrutava do campo verdejante que já ameaçava florir, folgando com familiares. Sedosos cabelos ruivos adornavam-lhe as feições, matriz simbólica do padrão de beleza medieval anglo-saxão.

Subitamente, olhámo-nos e logo experimentámos a laçada. Acabava de ocorrer o feitiço!

Pautando o seu dia-a-dia pela discrição crivada com laivos de acanhamento a delicada senhorinha, portadora de olhos cor de avelã, tal como uma atenciosa confidente, trajando fidelidade, rematou com xeque-mate a estrada das nossas vidas.

Em rotação sincronizada, esta satélite do lar é a Lua de seu nome.

A Galega de Castro - 2016

PIANO E RELÓGIO DA BELLA 

Já não há memória de ter tido outro abrigo!

Este instrumento musical de cordas, erigido numa das primeiras fábricas do país de "Sua Majestade", a "John Brinsmead & Sons", com sede na capital londrina, no último quartel da Era Vitoriana, mas com unidade fundamental da sua hereditariedade na antiga Toscana, quiçá encarnação de algum membro da prole de Bartolomeo Cristofori, habitava verticalmente o aposento destinado às visitas de uma residência no número cinquenta e um da Rua Cândido Sotto Mayor, em pleno Bairro da Madalena, na margem esquerda do Rio Tâmega, parte integrante da urbe flaviense.

Aquele recanto da Sala era assumidamente seu!

Corroborava de semelhante convicção o fiel companheiro de uma vida, o "William L. Gilbert Clock" nado no século XIX nas terras do "Tio Sam", mais precisamente em Connecticut. Esta versão negra de flávios apontamentos, onde se destacavam seis douradas colunas neoclássicas ladeadas por duas pegas em forma de cabeça honrando o rei da selva, jazia na tampa superior.

Pensamentos constantes de agradecimento à Tia Albina Mesquita - a Madrinha - pela originalidade da oferta que os uniu a tão enigmática, delicada e adorável donzela.

Pressentia a ligeireza dos seus passos e rejubilava! Sintomático da chegada da formosa Bella ...

Honrando ritual, ajustava o redondo banco, acomodava-se sobre o macio brocado de seda carmim, erguia a tampa e retirava o feltro de bordado floral expulsando-o para um qualquer lado da sala...

Ansiava pelo sorriso emanado do verde olhar! E ela ... cumpria!

Um profundo e adocicado suspiro indiciava o prelúdio musical.

Em cumplicidade, conversavam tocando-se...

E o medidor do tempo sempre a testemunhar o quanto robustos eram aqueles fraternos vínculos!

Eram quase sempre valsas e polcas plenas de frenesim, toldadas por pinceladas de arrebatamento...

Ao sábado, tinham o privilégio da companhia do timbre brilhante e agudo do violino pertença do mano João Luís. Das paredes do primeiro andar, numa áurea boémia, ecoavam ritmadas melodias, predominantemente mazurcas.

Em noites mais intimistas, em sintonia com os "noturnos", acendiam-lhe os círios, transformando os castiçais em braços erguidos em júbilo!

A Galega de Castro - 2017

ANTÓNIO - o Santo

A devoção de Esmeralda aos efeitos milagreiros de inspiração divina, encarnados no medievo Fernando, nascido em Lisboa, que atingiu notoriedade como António o Pregador, o frade lusitano possuidor de invulgar e notável cultura literária, cuja capacidade taumatúrgica o tornou merecedor da canonização, é assim perpetuada:

Acabado de chegar à quinta após infindáveis horas de viagem de automóvel que se iniciaram em Lisboa, sorveu dois copos da água fresca do poço e escapuliu-se para a cavalariça para mais uma cavalgada no "Bonito". Vislumbrando passeio no campo o amigo equídeo relinchou de contentamento. Com a agilidade que o caracterizava, o pequeno ginete, apoiando-se nas tábuas da cocheira, ultimou os arreios e, unidos em flecha, rompem em busca de diversão.

O sino da Igreja de Vilar de Torpim badalava as 7 horas da tarde quando o som de uma buzina nas imediações fez empinar o Bonito, projectando o jovem Manuel Maria para um dos lados da montada. O galopar desenfreado, impediu que o garoto se erguesse e o seu crânio foi arrastado ao longo do caminho.

Valeu a célere intervenção do Pastor que imobilizou o corcel e com o menino inanimado e envolto em sangue, solicitou-se a presença dos meios de socorro. Era o dia 31 de Agosto do ano de 1949 e naquela região da Beira Interior Norte escasseavam os recursos médico-hospitalares... pelo que um fugaz desvio para a Urgência da Guarda culminou em internamento na Capital.

O coma perdurou e a Mãe, perante tal infortúnio, implorou a intervenção do seu companheiro espiritual. Pactuou assim com o Santo António que se o filho se salvasse construiria uma capela em sua honra no local do acidente, incorporando réplica da sua imagem, e despojar-se-ia das jóias.

O Menino vingou! O compromisso foi honrado!

A enfermidade atingiu a orada de Santo António da Quinta do Cardo e a singularidade de outrora desvaneceu-se, perdurando apenas intacta uma placa relatando com detalhe o infausto acontecimento.

Quanto ao "António", optou pela eternização. Acompanha agora as nossas vidas...

A Galega de Castro - 2016

A Caixa da Vera

Foi a folha via de propagação e difusão de ideias, sentimentos, pensamentos, estados de alma, infortúnios, hostilidades e conflitos muito além do seu próprio tempo e espaço, sempre com o propósito de colmatar distâncias, de unir, mas também de estremar e fragmentar emissores e receptores, criando registos que se manteriam inalterados por séculos, atingindo a intemporalidade.

Intimista, a caixa da Vera dá guarida a suaves e graciosos resquícios dessa estrada global, protagonizando a facilitadora de segredos, paixões, afinidades, talvez inconfidências...

Como sua fiel depositária, cumpre-me preservar o legado perpetuando papel e envelopes.

A Galega de Castro - 2016

Caneta, papel e envelope

Mantemos o encanto mas, outrora, em tudo semelhante a Calvero e Teresa, assumimos a ribalta! Foi apogeu!

Envergando traje de guionistas, ícones de partilha, transmissores sem fios de estados de alma como fracasso, sucesso, amargura, amor, saudade, ódio, idealização, negócio, mistério,... frequentemente segredo, atingimos o estrelato.

Agora, somos que nem estilhaços com roupagem de elegantes símbolos distintivos...

A Galega de Castro - 2017

LENÇO

Abriu a gaveta e o suave aroma do lenço invadiu-lhe a alma, aturdindo-a. Sorriram. Felicidade recíproca transbordou daqueles corações...havia laços...

- Gostaria de ter um abraço teu, mas sinto-te tão frágil... - disse, em trémulo tom de voz, a Maria José.

- Os anos passam, minha querida! Já protegi cabelos e adornei donzelas. Mas a fraqueza apoderou-se de mim, estou mais débil mas tento continuar fiel à família... espero que por longos e duradoiros anos. Ajudas-me? - retorquiu o lenço.

- Claro, eternamente cúmplices! - balbuciou a Maria José.

- Recordo-te que caminhei muitas léguas, cruzei o rio, conheci outras vidas, convivi com momentos de júbilo e ventura e até dancei! Agora, a fragilidade dos filamentos impedem-me de caminhar...

- Escuta...vislumbra-se folia. Impeço-te de declinares o convite! Prometem infinita diversão plena de inolvidáveis melodias...!

Complacente, anuiu presença no baile. Inebriou-se com a perspectiva de voltarem a rodopiar!

Já noite alta, alguns pares tombaram despojados no encerado parquet sobre os sedosos filamentos róseos que adornavam o chão, que nem delicadas pétalas. Era o reflexo da fadiga emanado do adorno da dama...

Regressaram entrelaçadas, exaustas...

- Sinto frio. Podes acariciar-me? Mas, por favor, toma cautela... observa quão pálida estou. O rosa desbotado no amarelo quase imperceptível... Ah, mas a macieza, essa, tal como eu, obstinadamente persiste inalterável! - afirmou trémulo o lenço

- Senhora minha, aceitas visitar-me de quando em vez? - pergunta.

- Obviamente que sim! - rejubilou a Maria José.

- Abraça-me então, com carinho, por uns momentos, mas volta a guardar-me. Necessito de repousar - finalizou pequenino, o lenço.

A Galega de Castro -2016

"PAPÁ MAJOR"

Impunha-se manter a aparência de bravura, consciente do notório pavor que as latentes réplicas musculares e calafrios teimavam em não findar.

Mudos lamentos por ter ousado alistar-se tão precocemente toldavam-lhe a mente. A opção de se manter na distante, agreste e fronteiriça aldeia de Urrós ou ter acedido ao convite de um Tio Padre para experimentar o discernimento vocacional deveriam ter merecido a sua ponderação.

Sempre soube que não o compreenderiam, caso insistisse em aprofundar os dotes de fazedor de música. Considerariam absurdo!

Desde que teve noção da sua existência que se sentia atraído por todo e qualquer objecto que emitisse sonoridade. Uma afinidade inexplicável aos olhos pragmáticos do lar.

- Oh rapaz, isso não chega para alimentar uma família - sempre ia comentando o pai, regedor naquela ancestral localidade junto a um castro pré-histórico fortificado denominado de Castelo de Oleiros, na vizinhança do Rio Douro, de morfologia acidentada e rochosa, dominada por belíssimas paisagens naturais.

- Meu filho, a feitura e venda dos nossos queijos tem corrido de feição. Se aumentarmos os rebanhos e com os cortelhos que temos espalhados, facilmente o pastor Joaquim nos indica mais ovelheiros e cabreiros, permitindo-nos alcançar uma produção de invejar a qualquer queijeiro leonês - eram as insistentes interpelações da zeladora matriarca.

António até apreciava aquele alimento, principalmente o de leite de cabra, que, ritualmente, devorava à merenda, em saborosa parceria com compota de marmelo. Tentava com afinco consciencializar-se da vontade e do entusiasmo em dar continuidade ao negócio familiar, embora sem sucesso.

De imediato entristecia e atingia melancolia, sentimento dual que o irritava profundamente.

Parentes residentes nos arrabaldes de Chacim, sericultores já com alguma dimensão atento o vasto plantio de amoreiras que possuíam, o que lhes mereceu serem considerados como uns dos principais fornecedores da Real Fábrica das Sedas, também designada por Real Filatório de Chacim, sempre o tentavam influenciar em enveredar pela promissora actividade industrial, em grande florescimento.

- Tono, damos-te guarida e sustento enquanto fores aprendiz na escola de tecelagem. A habilidade manual que possuis será, certamente, uma "carta de chamada" para ingressares no filatório!

Amavelmente declinou. Nunca esqueceu tamanha generosidade. Sempre lhes ficou grato.

- Perfil de artesão tem o mano Domingos! Reparem como ele manuseia o barro! Um exímio oleiro! Será ainda melhor a lidar com o tear - referindo-se ao benjamim da família.

Na verdade, as suas verdadeiras aptidões tinham cariz musical.

Os préstimos como acólito nas celebrações dominicais e a capacidade evidenciada no coro baixo motivaram o Cura da Igreja de Santa Madalena a pretender engrandecer a dignidade das celebrações, insistindo com a hierarquia diocesana para a obtenção de um órgão de tubos, que mereceu anuência.

O acolhimento ao instrumento mereceu grande entusiasmo e pompa, tendo o organeiro de Braga sido convidado para cear na residência paroquial, evento para o qual marcaram presença todas as individualidades de Urrós. Muitos, diria a maioria, jamais tinha vislumbrado tão volumoso e grandioso apetrecho.

Uma pertinente questão, em jeito de cochicho, foi transversal a toda aquela multidão presente.

- Mas, afinal, como é que se manuseia?! Alguém tem competências para tal?

O burburinho incomodou e deixou o Abade visivelmente atarantado. Ruborizou. Coçou a grisalha barbicha. Obviamente que se tinha esquecido de contratar um organista. Lapso imperdoável, pensou.

Dotes de desembaraço sempre tiveram utilidade no que concerne a desenrascar-se de variadíssimos imprevistos ao longo da vida, sendo este apenas mais um no rol.

- Quem arrisca a inaugurar o órgão? Experimentar tocar nas teclas? - numa tentativa de remediar a lacuna, perguntou em tom audível.

Encostado à coluna do altar, o mancebo Tono, de olhos esbugalhados, presenciava toda a cena, sorvendo a acção como se de um ato teatral se tratasse. Sentiu o impulso de se propor, mas conteve-se. Afinal nunca tinha tido sequer visto, quanto mais mexido "naquilo"! Mas uma frenética ânsia voltou a empurrá-lo, deu dois passos em frente, hesitou novamente, vacilou, respirou fundo e, evitando olhar em redor, caminhou apressadamente e sentou-se em frente ao órgão. Mirou a consola. Arrepiou-se, fascinado com a possibilidade de tocar. Esboçou um sorriso de contentamento e, ao de leve, carinhosamente, experimentou contacto, fazendo deslizar suave e delicadamente as suas mãos ao longo do teclado.

Foi um primeiro encontro, uma atracção cujo toque gerou a prevista e óbvia simbiose entre ambos. Inexplicável! Reteve as lágrimas que teimavam em brotar. Emocionou-se! Gotículas de suor escorriam-lhe pela face. Impelido a sentir com mais profundidade, orientou os dedos apaixonados sobre as teclas, uma a uma, gerando uma agradável sonoridade.

Descobriu-se.

Descobriram-se.

Alheando-se, esquecendo porventura os estupefactos espectadores circundantes, deixou-se seduzir pelo som que a união entre ambos criava, num deslumbramento melódico inebriante.

Decorreu algum tempo, imensurável, quando, já exausto, sobretudo de emoção, parou, deixando cair os braços ao longo do corpo. Um forte aplauso fê-lo acordar deste sonho real. Da algibeira retirou o alinhado lenço e enxugou a suada face. Ainda aturdido, ergueu-se e, timidamente, desculpou-se pelo atrevimento.

- Meu rapaz, foste brilhante! É um dom! - bradou o Cura, de forma esfuziante.

- Temos organista! Um autodidata, presumo!? - interveio o organeiro bracarense.

A partir daí, as solicitações para tocar foram muitas e diversas, algo que agradou ao clero local que viu valorizado o investimento efectuado.

Quanto ao António, tantas iniciativas incrementaram o aprofundamento musical, alargado ao domínio dos instrumentos de sopro, actividade vantajosa por amiúde recompensa pecuniária.

Vivenciou um momento sonhado. Sintomático, era observá-lo a percorrer a calçada em passadas ligeiras e saltitantes, sorrindo em redor, a caminho do templo para mais um ensaio, múltiplas vezes um concerto.

A vida corria-lhe de feição quando um grave, mas previsível, acontecimento ocorrido no País no outono de 1807, iniciado em 20 de novembro e designado por Guerra Peninsular, fez despoletar o patriotismo e o sentido de missão para com a nação. Foi, pois, com clareza e determinação que se alistou no exército como praça, tendo sido afecto à guarnição militar do Regimento de Infantaria da Praça-Forte de Almeida. Contava 18 anos celebrados em 23 de setembro último. De média estatura, com robustez quanto baste, tornara-se um homem feito, já detentor de um fino e aloirado bigodinho.

Verdade seja dita que até ao Cerco de Almeida, ocorrido entre 15 e 28 de agosto de 1810, no início da terceira invasão do exército de Napoleão Bonaparte, nunca tinha tido um papel efectivamente activo no teatro de guerra. As suas funções cingiam-se à vigilância da Fortaleza, protecção da população residente e a realização, duas vezes por semana, do controlo nocturno da Ponte sobre o Rio Côa existente nas proximidades.

A velha máxima de que a música é a arma dos exércitos imperiais valeu ao já Aspirante Tono a nomeação como animador, com o dever de promover a camaradagem, levantar a moral dos soldados, acompanhar durante as cerimónias militares e fúnebres. Assim, para além da imprescindível baioneta, também lhe foi atribuído um tambor, uma trombeta e um pífaro, a serem utilizados em distintas situações.

E como ele manobrava bem o tambor, com ostentação e orgulho, durante as paradas!

Na alvorada do 15 de agosto uma forte explosão na praça atingiu o paiol. O esperado ataque iniciava-se, pois tinha chegado um mensageiro há poucas horas informando da tomada de Ciudad Rodrigo por parte dos franceses, sob o comando do General Massena.

O perigo era eminente.

Tono empalideceu. Tremia. No íntimo só pensava em fugir. Mas para onde?

Um oportuno e enérgico aperto no antebraço esquerdo de um calejado hierárquico incutiu imediata coragem, cessando o pânico. Olhou de relance e validou a presença do arruivado responsável da guarnição, de origem irlandesa, o Coronel William Cox.

Efeito fulminante! Num ápice, colocou a baioneta ao ombro, agarrou e tocou o tambor, a "voz do comandante" instruindo a infantaria para posicionamento na defesa.

Infelizmente, em minoria e lesados quer pela perda do material bélico armazenado, quer pela traição de alguns oficiais aliciados a integrarem as tropas inimigas, a capitulação foi o desfecho ocorrido a 28 de agosto.

Apesar de ter havido elevadas perdas humanas, o afortunado António apenas saiu enfarruscado pela fuligem da pólvora.

Tendo cessado este período atribulado da história de Portugal regressou para um período de repouso à terra natal, onde foi recebido de braços abertos como um herói nacional. O mano Domingos, em jeito de homenagem, modelou uma estatueta em barro policromada evocando a sua figura trajando de "tambor-mor" de infantaria.

Sabe-se que seguiu a carreira militar, atingindo alta patente com notoriedade.

É público que também esteve destacado na praça de Chaves, ponto fronteiriço muito vulnerável aos ataques inimigos. Desempenhou com lealdade e zelo as funções militares que lhe foram confiadas. Mas a sua faceta de génio melódico teve o seu apogeu com o incremento e visibilidade que proporcionou à música regimental do aquartelamento, criando a "Charanga Flaviense". Revelou-se na sua capacidade negocial com a Fazenda Real para obtenção de subsídios para a aquisição de instrumentos, em concreto um fagote, um primeiro clarinete, dois segundos clarinetes, duas trompas, um flautim, um clarim, um bombo, um prato e uma caixa de rufo. Foi de tal forma impactante e distintivo o seu papel, inclusive por ter sido agregador e angariador de jovens para o Real Serviço Militar que mereceu ser agraciado, já a título póstumo, por uma medalha de mérito e louvor, atribuída, respectivamente, pelo Regimento e pela edilidade municipal.

A peça de olaria prevaleceu intacta nas gerações seguintes, tendo sido, no 1º quartel do século XX, frequentemente e jocosamente apelidada de "Papá-Major" por os seus detentores, em referência a umas donzelas, suas parentes, sempre que estas com evidente orgulho se referiam ao seu progenitor.

Continua, na actualidade, este peculiar e evocativo boneco, firme e hirto, lamentavelmente já amputado das baquetas.

A Galega de Castro

Maio 2020

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